Maternizar
Acho que nasci para gerar.
Quando eu tinha três, quatro, cinco anos, minha mãe me colocava pra dormir, me dava um beijo e falava pra eu rezar. O meu pai me dava um beijo, e me dizia assim: Eu te amo, eu te adoro, eu gosto muito de vooooocê.
Eu rezava, pedindo pro papai do céu deixar o mal do portão pra fora da minha casa. Aquele portãozinho baixo, preto, com a tinta descascando, que deixava à mostra o azul antigo do portão.
Depois de rezar, colocava o travesseiro na minha barriga e fingia que estava grávida. Dormia grávida. Nem sabia como eram feitos os filhos, e já dormia grávida da idéia de estar grávida.
Acordava e durante o dia brincava de boneca, mas também as esquecia na cama quando ia brincar com as minhas primas.
Fui crescendo, e todos os dias pensava em ter filhos.
Quando me dei conta, já não era mais virgem, tinha dezesseis anos e um namorado. Quando me dei conta, meus pais estavam separados, minha vida estava uma bagunça, e o (ex) amor da minha vida me dizia que eu era a pessoa mais importante da vida dele.
Uma vez ele perguntou se ele era a pessoa mais importante da minha vida. Pedi desculpas e disse um tímido não.
“A pessoa mais importante da minha vida é o meu filho”.
Ele não compreendeu a minha resposta, e eu também não poderia cobrar isso dele. Nossos pontos de vista sempre foram diferentes. Por isso tudo terminou tão tragicamente, drasticamente, a ponto de nos machucarmos bastante.
Porém, tudo superado, enfim.
Eu era uma adolescente com um diário debaixo do braço. Um diário cujo texto em primeira pessoa tinha sempre uma dedicatória: aquele que saísse do meu ventre.
Agora eu estou aqui. Agora? Aqui? Minhas idéias são um pouco mais transcendentes. Mas o desejo parece ser inato, o desejo de ser mãe, a vontade de gerar, de educar, de criar, de amar, de brincar e criar vínculos, de ser uma família, de conhecer o pai daquele filho que tanto espero. De saber que os desejos e as vontades entre mim e o pai são semelhantes, de gerar um filho para a liberdade de ser quem ele quiser.
Amamentar e não aprisionar.
Entender.
Fazer parte do processo de aquisição de linguagem, de interpretação dos sentimentos. Fazer parte, fazendo arte.
Eu digo isso com lágrimas nos olhos e com o coração pulsando, pulando, puxando o desejo de algum lugar maior que ele mesmo.
Deméter, materniza.
Seguro a mão das crianças que passam, sem mesmo tocá-las.
Elas seguram o meu espírito.
O meu espírito só se tornará seguro e completo no dia do nascimento do meu filho.
Se eu não puder ter filhos? Sentir os nove meses, ali, perispíritos sobrepostos, justapostos, vou ter de aprender a lidar. Eu adoto.
Preciso estar preparada. Preciso ser minha própria mãe.
Quero gerar uma poesia concreta e personificá-la.