Wednesday, October 18, 2006

À Dorothi

É preciso chorar em cima do caixão? Tudo bem se eu não souber chorar? Porque eu sinto esta morte como quando a gente dorme em cima do braço, e acorda com ele adormecido, formigando. Queria pegar a minha menina nos braços e dizer lindas preces de adeus, lindas preces de nunca tê-la visto. É a minha filha ali, deitada, prestes a ser enterrada. Eu nunca tive interesse pelas flores, o cheiro delas sempre me lembrou morte. Desde pequenina. Eu sempre convivi com a morte, e não. Ela não é assim tão dura quanto parece ser. É apenas um começo de algo que não se repete. E o final de coisas repetitivas. Então eu prefiro flores vivas, aquelas que têm sulco e raízes fincadas na terra, porque elas são mais naturais. Levo-te nos braços, filha minha, porque o teu sangue foram os meus sonhos, e a minha memória de ti, foi tudo o que eu amei. Jaz aqui aquela que ficou exposta ao perigo tantas vezes, que quase morreu tantas vezes, que quase foi assassinada pelas mãos de quem eu amo, que voltou à tona várias vezes, que foi feliz e também chorou várias vezes. E se eu te lembrar um dia, filha, a lembrança ecoará como uma visita aos deuses, porque este paraíso, por mais passageiro, foi meu, e somente meu, e por ser tão meu te levaram de mim, menina. Levaram-te, Dorothi. Mas é que meus sonhos permanecem intactos, embora você tenha ido, teu nome está aqui como algo que foi e que nunca vai ser… Sonhos intactos agora sob outros nomes, que não Dorothi. Não, eu não quero sofrer a tua morte, doce filha. Eu só quero seguir adiante, porque as borboletas são belas no meu caminho, e você se foi. Não há nada a ser feito, a não ser seguir adiante e observar as borboletas.
Posted by ||Nat at 22:53:48 | Permalink | Comments (3)

Monday, October 16, 2006

A capella 
 
 
♪T alvez eu tenha bequadrado
 
 
 ♪o sentimento.
♪E u me entendo como entendo de
 
 
♪m úsica.
♪S ou semibreve.
 
 
♪S aio sempre fora das linhas e das pautas
 
♪( como se transcrevem as oitavas).
 
♪M eu passo é Largo.
♪M inha impressão Adagio.
 
 
♪M inha sensação Andante.
 
 
♪M eu ritmo Allegro.
♪M inha expressão Presto.
 
 
♪A intensidade de tudo isso varia
♪d e fortíssimo a pianíssimo.
♪A cidentes acontecem:
 
 
 
♪O que era sustenido ficou bemol.
 
♪D evo pedir perdão pela dissonância?
♪. .. é que a partitura da minha vida é um recital.
 
♪S e nos dissociarmos fico semifusa, a priori,
 
 
 
♪m as me desconfundo,
♪p odendo então continuar
♪m eu eterno
♪s olfejo.
 
Posted by ||Nat at 21:32:32 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, October 11, 2006

Gaveta dos Sonhos

Tenho no meu quarto uma gaveta secreta, gaveta indiscreta.

Guardo nelas minhas fofuras, minhas loucuras, minhas sandices.

Dentro dela, nada de mesmice.

Ela tem cor verde desbotada,  mais parece mofo.

Não conte a ninguém, mas guardo pessoas dentro dela.

Algumas estão mortas, putrefação pura.

Algumas vivem como se fossem dentro de caixões fechados e abandonados.

Vão morrer também.

Não conte a ninguém que eu sou uma assassina.

Não conte a ninguém o meu esmero com as coisas que guardo na gaveta.

É que depois de guardadas, elas não têm mais valia nenhuma.

Viram fantasia, ida. Viram coisa do passado.

A minha gaveta é tão triste, eu a tranco e não deixo ninguém ver.

Nela, coisas sórdidas, eróticas, familiares, românticas e planos de futuro.

É a gaveta da verdade que poderia ter realmente sido verdadeira, mas não foi.

Gaveta escondida.

Eu não quero levar mais nada nem ninguém pra gaveta.

Não, não me obrigue a guardar mais coisas na gaveta.

É triste ter que guardar coisas importantes na gaveta dos sonhos irrealizáveis.

Muito triste.

Posted by ||Nat at 22:32:08 | Permalink | Comments (3)

Saturday, September 16, 2006

O meu amor - Parte I - poema eternamente inacabado

O meu amor tem um andar que transpassa qualquer espaço entre nós.
Ele tem um olhar de cantiga infantil.
Tem um sono leve e um peito grave e desnudo sob a minha face.
O beijo do meu amor
é de beijar o meu beijo, e não a minha boca.
Mas quando me beija a boca, que louca eu fico, gemendo rouca.
Meu amor possui dedos de detalhes, que não podem ser estalados por motivos lindos.
Ele tem mania de causar-me alegria (sem saber do vício que é para mim um dom).
É dono de um calor bemol, de um riso sustenido, de uma harmonia estrondosamente silenciante.
Ele tem o gosto indizível da saudade. Chega e parte, mesmo assim, fica. Ao invés de passar, pacifica.
A pose dele é juvenil, e ter uma filha faz parte, se não dos seus planos, dos seus sonhos, que se confundem com os meus.
O meu amor é tão meu AMOR, que tenho medo de possuí-lo e chamá-lo de pronome possessivo da primeira pessoa do singular.
(Não o possuo para mim, sim para ele. Sendo ele o que ele quer, torna-ne o que mais espero dele).
Ele é tanta coisa que ainda não sei, será tanta coisa que jamais foi, e foi tanta coisa que nem sei existir, e não me incomodo com isso.
Guardo comigo também minhas mudanças, efeito da grande busca por algo que ainda não sei o quê.
Ele não é perfeito. E como eu o amo ainda mais por isso.
Quando ele me beija com a boca de cigarro, sei que sou capaz de tanto para sentir a paz de ser dele.
Toca-me como ninguém:
eu-teclado, eu-bateria, eu-mulher.
Ele causa-me sonhos.
Devaneios
Distrações.
Calça meus sonhos com sapatos sem tamanho, pois meus sonhos são além.
Repito então, para terminar a primeira parte, o mantra:
Amoooo

 


Amoooo

 

Amoooo

 

to be continued (one day)

Posted by ||Nat at 02:11:03 | Permalink | Comments (6)