Tenho pressa, muita pressa. Queria saber de que matéria são feitos seus ouvidos, tão exigentes. Depois disso, ficaria calma. E seria fácil misturar minha saliva na sua. É tão urgente o que te sinto, tão pra ontem, tão pra hoje, tão pra sempre. É um amor que nunca cairá em desuso. Escuta, permita que eu encoste a minha boca no que existe de mais silencioso em você, quero cada pedaço do que nunca será dito entre nós. Eu só quero fechar os olhos e me ser ao seu lado. E quero que você se seja também. Tudo o mais, conquistaremos deste modo, assim, sendo. Eu me ser já é um difícil exercício, tão pesado, tão fatal, mas vale tanto a pena.
Ouve, quero que você se seja, quero que se seja muito, todo, mútuo. E assim iremos de vidas dadas, amando realmente. Me ajuda a me ser que eu te ajudo também. É isto tudo o que mais quero nessa vida, me ser ao seu lado. Mas eu ouço uma voz, não, não é uma voz, é quase isto. É uma lembrança que mora dentro da minha psique e que pisca, pisca, parece uma voz, é quase uma voz. Mas não é. Ela me diz que não é preciso fazer esforço para ser-se, embora todas as pessoas esforcem-se a cada doloroso minuto. É assim, eu sei, mas não vivo do que sei. Sei que não é preciso esforço, mas quem vive do que se sabe? Se vive do que se vive. O que sei demora a virar instrumento, matéria, demora a tomar forma em minhas mãos. Nas suas, não sei. Você consegue viver do que sabe? Se eu agisse de acordo com tudo o que sei, talvez… (?). Não sei o que seria se assim fosse. Mas é um ufa saber que sou feita do que sei e do que faço, e nem sempre o que faço está de acordo com o que sei. É um ufa saber que está tudo bem, que é permitido. Então eu sou. Pronto. Ufa. Está tudo bem, posso me ser.
Me aceita inteira? Me toma pra você, mas num gole só e também em vários goles. Sou infindável e trago uma saciedade enganosa – porque essa saciedade que trago também traz em si outra coisa, que é o desejo. Isso é ser humano, eu sou, você é. E deste pacto tranquilo, vamos sendo, você me bebendo, me bebendo, infinitamente. Sou terrivelmente líquida. Tomo a forma do meu recipiente, do meu corpo, mas só por adaptação. No fim das contas, tenho a forma de uma gota d’água em queda livre. A forma livre da água. Me absorva, então. Me toma. Me toma pra você. Nossa vida é tão vasta, tão!, com certo medo me entrego. Confesso. Tenho medo. Corro um enorme risco te amando tão intensamente, corro o risco de me ser. Ser-se será sempre arriscado. É preciso coragem para que isto – ser-se – aconteça de forma leve.
Enquanto você não está ao meu lado, sou-me, não sou-me, sou-me, não sou-me. Eu me falto, e nessa falta, geralmente nem me procuro, apenas existo. Existir-se é diferente de ser. Ser é estar comprometido, existir é pura falta de obrigação. Às vezes tenho a profunda impressão de que a liberdade está somente em existir. Uma pedra é livre, porque ela existe. Uma árvore experimenta a inefável vastidão da existência, e nem se dá conta disso: é mais livre do que qualquer um, se é que algum um é livre. Mas se um dia eu for livre, não deixa. Me prenda em você e me lembre de que a liberdade é só um sonho nebuloso. Depois toque qualquer música, eu fecho os olhos e não deixo nenhuma palavra entrar, que é pra não contaminar essa grandeza que sinto quando te ouço, voz, seus erres, seus esses.
Te quero instrumental. Tua vida me suaviza. Me deixa te escrever? Te escrevo olhos, boca, testa, cabelo. Te escrevo peito. Te escrevo peito nu e pernas. Te escrevo dentes, mãos, braços, mamilos. Me deixa te escrever inteiro. Não, não deixa. Escreve-se, mata-se. O que se esclarece, torna-se dito, e o que já foi dito torna-se inútil. Tudo fica muito mais bonito no silêncio que repousa sobre o branco da página. Mas beleza não é clareza e eu desejo demais ser clara, sem nenhum êxito, é por isso que vivo matando. Mato tecnológica, não com uma caneta, mas com a ponta dos dedos. Mortes digitais. Te mato um pouco e isso não é pecado, você continua vivo. O que mato não é exatamente você, não possui corpo. Eu mato o segredo. É isto.
Tanta coisa existe para nunca ser dita, mas não sei bem o que pode e o que não pode, a isto chamo loucura e sempre acabo dizendo a palavra errada, a que não deveria dizer. Me aceita assim, louca? Cada palavra, um risco. Muitas palavras, muitos riscos. Quero correr o risco de amar, eu não tenho escolha mesmo. Então sigo amando. Eu só peço que me abrace forte e que corra também um dos maiores riscos da vida. Amar parece ser perdoar a existência do outro. O outro que machuca, mesmo que sem querer ou imaginar. Porque o outro tem um olhar sobre mim, e esse olhar me fere. Amar é perdoar este ferimento que o outro provoca. Eu te perdoo por me olhar. Você me perdoa?
Estou pronta. Venha me buscar. Já estamos atrasados para a grande festa. Eu coloquei o meu melhor vestido, por dentro sou toda segredo. Mas eu revelo, a você eu posso. Venha me buscar, me leve para a vida enorme que só poderei ter se for ao seu lado. Para a vida enorme que já está me engolindo. Venha depressa, venha manso, venha no tempo da vida, das coisas. Venha infinito e mistério. Eu vou descalça, quero sentir o áspero chão da realidade sob meus indelicados pés. Quero pisar, um passo, dois passos, três passos, quatro passos, parar à sua frente, ligeiramente dolorida de tanto esperar. Você está aqui. Você tem matéria. Você existe e nós nos encontramos. Isto me assusta. Piso com o pé direito sobre o seu pé direito, e com o esquerdo sobre o seu pé esquerdo. Me leva como quem leva uma criança? Vamos brincar. Esquece da vida um pouquinho? Esquece comigo. Pronto. Acho que estamos preparados. É. Acho que sim. Vem ser comigo então. E vamos.