Terça-feira, 07 de Novembro de 2006

Eu vivo a procura
de respostas
e curas
pra quem não tem perguntas
nem feridas.
Eu vivo achando valor
no lixo das pessoas
e vivo sorrindo
e achando que eles
são lindos.
São lindos enganos meus
colhidos podres
revertidos em
maravilhosos e doces.
Eu vivo a procura
do sorriso
do esplendor
da totalidade
do precioso
do ponderado
do preciso
e só encontro o malgrado
o misterioso
o indeciso.
Eu corro e subo o morro
e quase morro de tão fatigada
e minha testa suada
e minhas pernas bambeadas
e meu sorriso castigado
e meu amor imprudente
e minhas mãos indecentes
e tudo, tudo tão valioso e valente
tudo tão coragem
e
i n o c e n t e.
 
Vitórias minhas
sobre mim, deitam em mim
pisam em mim
me sacodem daqui pra acolá
e brincam comigo
fazendo-me dormir
depois acordar.
Ir depois recuar.
Partir depois voltar.
Parir depois matar.
 
Vitórias que fazem de mim
a vencedora
a escolhida
e tecelã
e irmã
e filha
e amiga.
 
Lágrimas.
 
Realidade e fantasia.
Escolhes feitas. Demagogia.
 
Não, não, não, não hipocrisia
não crio esta criatura
fria.
 
Eu quero amar, há mar salgado em todo esse meu
doce melado de amor
amor de mel
dentro do amor do mar salgado de cor de aspirina quando borbulha n'água.
Eu minto e finjo que minto
Porque estou feliz
E sinto
e sinto
e sinto
que minto.
Desvairada
e desvariada
e avariada.
Cuidado que a minha insanidade é máscara e esconde e esconde e esconde.
Tô gaga
Tô gaga
Tô gaga.
Gágágágága.
Que eu esteja gaga infinitamente do amor que sinto.
Pra sempre.
 
E nunca mais finja que minta
e que sempre sinta.
E sinta
e sinta.
 
E nunca mais minta que finja.
Escrito por ||Nat em 21:46:56 | Link permanente | Comments (0) |

Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Quando eu era pequena, meu pai dizia que eu tinha olhos de jabuticaba.
-Moço, me ensina a rimar?
Quando eu era pequena, minha mãe dizia que eu era muito bagunceira.
-Moço, me ensia a arrumar?
Quando eu era pequena e meu irmão tinha nascido, diziam-me: seja exemplo para ele!
-Moço, me ensina a rumar?
 
Caminhei de pernas bambas e tortas
até aqui.
Vereda curva e torta
até aqui.
Trilha longa e difícil
 
até aqui.
 
Aqui.  Ponto.  Final.  Começo.  Aqui.
 
O moço apontou-me o caminho.
O moço organizou meus pertences.
O moço me ensinou a ser poeta.
 
Estou aqui.
 
O torto, o turvo, o curvo, está lá, um passo para trás.
O moço sempre me falou das coisas duras.
Agora estou aqui.
Tempo estou espaço.
Emoção estou razão.
Agora estou aqui.
 
Parada.
Concentrada.Parada.
 
É dar o próximo passo e eu sei que tudo muda.
É por o pé pra frente e plantar uma muda de futuro.
 
Concentrada, afinal, cheguei aqui, e no meio da estrada
 uma 
e
n
c
r
u
z
i
l
h
a
d
iuqaqui 
 
Estou muda.
Voz estou silêncio.
Aço estou bagaço.
Poesia estou prosa.
 
Concentrada. Parada. Sentada.
Duas novas possibilidades:
direita ou esquerda, direita ou esquerda?
 
Moço, cadê você?
Vem, vem responder!
...responder...responder...responder...
 
Ecos de solidão, que a estrada está vazia
e o moço deve ter desistido de ajudar, tamanha minha teimosia.
 
Eu poderia deitar-me aqui e dormir e sonhar que escolho uma direção. Só que eu ia repetir o erro. Quantas vezes eu tive que escolher e fugi pra sonhar?
Sonhos lindos, sonhos lúcidos, sonhos loucos, pesadelos.
Acordei no mesmo lugar.
 
Parei aqui. Congelei o tempo para escolher sem pressa o próximo passo
(a massa me empurra se o tempo passa).
 
 
Estrada não é metáfora
e vida não é dividida,
ou então transformava-me em duas
e findava a confusão.
 
Não.
 
Poesia, sou prosa, e tenho que escolher uma objetiva direção,
que o limite do subjetivo é a pele,
a caneta,
e até onde vai o som da minha voz.
 
Voz, sou silêncio, e tenho que escolher.
 
Tenho que escolher.
Tenho que escolher.
 
 
Escrito por ||Nat em 21:17:04 | Link permanente | Comments (3) |

Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

 B     o    m           d     i     a
 
 
Bom dia, dia! Como está?
Acordei com a esperança no meu olhar.
Abri os meus olhos,
pus-me a cantar.
Cessei a tristeza
do meu andar.
 
Dia! Dia! Tenho um segredo pra contar
pra você:
eu era a lagarta que rastejava
a procura de não sei o quê.
Veio a inércia e a escuridão,
fiquei envolvida- nenhuma ação.
Agora rompo a casca com fervor
(o casulo caiu no chão)
e eu dei meu primeiro vôo descordenado
-um vôo na amplidão.
Dia, meu querido dia
meu andar não é mais triste
e meu voar é tão belo,
pois hoje vejo do alto e distantes
as pequenas coisas bobas que eu temia.
Dia, meu amigo dia
ilumina o meu caminho aéreo.
Aumenta o teu som
estéreo
que eu danço tua luz no ar.
Dia, obrigada por aparecer
-como pude duvidar que viria?
 
Perdoa as antigas dúvidas da lagarta rastejante.
 
Dia, dia, eu me vôo
pois há muito mais poesia em voar
do que em escrever.
 
 
 
Escrito por ||Nat em 16:47:11 | Link permanente | Comments (5) |

Terça-feira, 03 de Outubro de 2006

Maternizar

Acho que nasci para gerar.

Quando eu tinha três, quatro, cinco anos, minha mãe me colocava pra dormir, me dava um beijo e falava pra eu rezar. O meu pai me dava um beijo, e me dizia assim: Eu te amo, eu te adoro, eu gosto muito de vooooocê.

Eu rezava, pedindo pro papai do céu deixar o mal do portão pra fora da minha casa. Aquele portãozinho baixo, preto, com a tinta descascando, que deixava à mostra o azul antigo do portão.

Depois de rezar, colocava o travesseiro na minha barriga e fingia que estava grávida. Dormia grávida. Nem sabia como eram feitos os filhos, e já dormia grávida da idéia de estar grávida.

Acordava e durante o dia brincava de boneca, mas também as esquecia na cama quando ia brincar com as minhas primas.

Fui crescendo, e todos os dias pensava em ter filhos.

Quando me dei conta, já não era mais virgem, tinha dezesseis anos e um namorado. Quando me dei conta, meus pais estavam separados, minha vida estava uma bagunça, e o (ex) amor da minha vida me dizia que eu era a pessoa mais importante da vida dele.

Uma vez ele perguntou se ele era a pessoa mais importante da minha vida. Pedi desculpas e disse um tímido não.

"A pessoa mais importante da minha vida é o meu filho".

Ele não compreendeu a minha resposta, e eu também não poderia cobrar isso dele. Nossos pontos de vista sempre foram diferentes. Por isso tudo terminou tão tragicamente, drasticamente, a ponto de nos machucarmos bastante.

Porém, tudo superado, enfim.

Eu era uma adolescente com um diário debaixo do braço. Um diário cujo texto em primeira pessoa tinha sempre uma dedicatória: aquele que saísse do meu ventre.

Agora eu estou aqui. Agora? Aqui? Minhas idéias são um pouco mais transcendentes. Mas o desejo parece ser inato, o  desejo de ser mãe, a vontade de gerar, de educar, de criar, de amar, de brincar e criar vínculos, de ser uma família, de conhecer o pai daquele filho que tanto espero. De saber que os desejos e as vontades entre mim e o pai são semelhantes, de gerar um filho para a liberdade de ser quem ele quiser.

Amamentar e não aprisionar.

Entender.

Fazer parte do processo de aquisição de linguagem, de interpretação dos sentimentos. Fazer parte, fazendo arte.

Eu digo isso com lágrimas nos olhos e com o coração pulsando, pulando, puxando o desejo de algum lugar maior que ele mesmo.

Deméter, materniza.

Seguro a mão das crianças que passam, sem mesmo tocá-las.

Elas seguram o meu espírito.

O meu espírito só se tornará seguro e completo no dia do nascimento do meu filho.

Se eu não puder ter filhos? Sentir os nove meses, ali, perispíritos sobrepostos, justapostos, vou ter de aprender a lidar.  Eu adoto.

Preciso estar preparada. Preciso ser minha própria mãe.

Quero gerar uma poesia concreta e personificá-la.

Escrito por ||Nat em 15:03:07 | Link permanente | Comments (5) |
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