Friday, August 14, 2009

Carta ao Homem

Você me separou da natureza e me ofereceu uma cultura. Fiquei no meio de ambas, tentando ser inteira, ser mulher, ser o quê? Você me aponta por ser tão regrada quanto a lua. Me olha torto, não entende meu modo de compreender o mundo. Sabe por quê? Porque eu não compreendo o mundo. Eu o percebo. E você acha isso inútil. Para que perceber a realidade? Onde aplicar este saber? Em um mundo de seres sociais, eu sou um ser humano com uma vulva e seios. Tenho um ventre e sangro. Todos os meses eu recomeço. Em um mundo onde prevalece o seu código, sou taxada de irracional e infantil. Tenho minha voz, baixa e até trêmula. Você me corta e eu me calo, sempre quando quer falar. A minha força está no silêncio que você nunca vai compreender. Porque não se compreende, se percebe. Estou tão cansada de ter de ser como você. Aprendi a falar a tua língua, porque ela predomina. O código do homem. Isso faz de mim forte. No entanto, gostaria de continuar sendo fraca, cumprindo a minha natureza. Gostaria que você compreendesse o meu destino, e que não se aproveitasse dele. Eu tenho que ser você e tenho que me ser ao mesmo tempo. Ambígua. Enquanto eu ganho o meu espaço, eu me perco de mim. Do que é pra ser. Eu fui feita pra ser. Aos poucos vou sendo. Lutando, mas sempre sendo. Lancei para cima a corda, acima das nuvens. E a corda se fixou. Não sei o que existe para além do que posso ver, mas agarro com força a corda. Agarro e vou subindo, meio cega. Não sei onde vou chegar. Não sei o que segura a corda. Será a minha esperança? Mas vou subindo, eu sou assim. Não sei o que tem lá, para cima. Mas vou percorrer o meu caminho. Depois eu fico sabendo. Essa é a minha lógica. O meu modo de viver.


Ass: Mulher

Posted by ||Nat at 18:35:51
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