Impossível Comunhão
Não me interprete, eu brinco de ser triste. E você vai ficar confuso se não fechar os olhos e apenas brincar comigo. Aqui eu sou tudo e falo mesmo sem voz. Nesse silêncio é que se encontra o meu maior poder. Você pode combater cada uma das minhas palavras, mas o meu silêncio: não. Este ninguém pode. Então ninguém pode comigo. Sou forte. Vê? Eu provo. Prova da minha palavra nunca pronunciada? Do vazio que ela causa. Toma. Aos poucos. De gole em gole você vai se enchendo com o meu vazio estúpido e bobo.
Estou derramada: me observe e me absolva. Absorver jamais. Estou absoluta, abdicante. Pisoteada por tudo aquilo que em mim quer vencer e só sabe perder. Me vê? Não, nunca, nada, ninguém, jamais. Nem eu mesma. Transbordei, quieta, amarga, com medo, invisível. Como sempre, benzinho. Meu silêncio profere. Sei disso, mas nada posso fazer. Isso sou eu. Não que eu goste, não que eu aceite. Mas é assim e eu não tenho muito para onde correr. Não quero te dizer tudo o que preciso te dizer. Nem quero dividir nada disso com ninguém. Enquanto for meu, continuará sendo. Assim: só meu. É secreto, divino, diabólico, é meu.
E é nisto que está toda a glória do meu silêncio. Não divido a palavra secreta, não divido, ela é só minha. Guardo-a egoísta e relutante, escondida e restrita ao tutano dos meus ossos. Até mesmo quando eu morrer, a palavra será intransponível. Porque eu só a sinto com a alma. E ela é ininteligível ao corpo.