Demasiado Humana
Existir me exausta e por vezes dá nojo e ânsia. Só quero ser sincera e aceitar a vida que tenho. Porque não posso ser total sem tropeçar nos pés dos outros. Tenho a sensação de que jamais tirarei a roupa. E, mesmo que eu tire, jamais me verão nua. Porque no fundo, sou feia demais. Ninguém me amaria se soubesse o que penso enquanto tomo banho ou me olho no espelho.
É, estou exausta sim. Se cada um assumisse a sua própria humanidade, as cargas seriam menos pesadas. Não existiria tanta culpa inventada. E daria para ser um pouquinho mais feliz. Um pouquinho mais, que fosse. Felicidade pequena já é de bom tamanho. Porque se cada um olhasse para si e em seu íntimo dissesse “tudo bem em ser eu mesmo”, eu poderia olhar para mim e dizer “eu sou eu-mesma, tudo bem. tudo bem, calma, calma. tudo bem”.
Se cada um se aceitasse mais, também eu me aceitaria. Mas estamos todos tão doentes, tão rudes, tão interessados pelo desinteressantíssimo. E desinteressados pelo interessantíssimo.
Pode ser que eu esteja totalmente errada em meu modo de viver. Pode muito ser. Sou eu, então? Me meti numa vida idiota e acabei sendo mais idiota do que eu era no início?
Existem muitas pessoas idiotas em minha vida. Eu as escolhi porque talvez se pareçam comigo em minhas idiotices. Para me sentir parte então, eu as escolhi. A diferença é que tenho consciência de minha idiotice. Isso me faz mais idiota. As que o são sem saber, de certo modo, são isentas. Isentas pelo menos de si mesmas, não se julgam, não se levam ao fogo, não se cozinham vivas. Estou me sentindo anti-poética, queria ser só natural. Aceitar a perfeição de minha natureza. Mas sou anti-natural por natureza.
Não, não. Penso que sou. Herdeira de tudo que já se pensou dentro da humanidade, compartilho da sensação de que o ser humano é a coisa mais artificial que existe. Mas são tão naturais quanto a formiga, e tão natural é meu pensamento e o que construo, quanto é natural uma vaca ruminando. O desumano não existe. O super-homem, sim. E se estou sendo confusa, me aceite. Porque é o que eu mesma tenho tentado fazer.