Thursday, June 4, 2009

Dito


 

Voltar no tempo. No dia em que comemorei meu aniversário de dois anos, como naquela fita VHS que perderam e que eu nunca mais vou assistir. Olhar pra você, franzino, querendo chamar minha atenção. Aquela camisa meio alaranjada, o sorriso seco. Lembrar daquela cadeira de balanço em que sentávamos juntos e que depois você me deu de presente – aquela que descabidamente jogaram fora assim que parti. Pensar em como era bom não ter que te pedir bênção, como os demais faziam. Bastava um sorriso e um abraço.  E de como era ruim ver as primas sentindo ciúmes por eu ser a preferida. Espero que nenhuma delas leia isto. Seu cheirinho de velho, a risada esganada. Os óculos. O mau humor e a falta de paciência. O carro com o banco mais macio do mundo. Aquele radiozinho com músicas antiqüíssimas. O pinico verde. Tento me lembrar das coisas ruins que todos diziam que você fazia, impossível. Nunca consegui enxergar em você o homem que tanto maldiziam. Não lembro do seu rosto no dia do enterro da vó. Mas senti raiva quando soube que você já estava com outra. E fiquei triste porque vi entre ambas uma incrível semelhança –nos cabelinhos bem pretos, na pele enrugada e no cheiro de talco. O bolo de fubá que você nunca mais fez. Ah, que indignação senti quando sua mulher fez pra mim o bolo de fubá que eu havia pedido para você fazer. Você me levando ao aeroporto – nossa última voltinha. E foi ficando doente. Falando coisas sem sentido. Conversando com o espelho. Não reconhecia mais ninguém. Como foi triste não ser reconhecida por você. Sentar ao seu lado e mostrar uma foto de quando eu era bem pequena. “É minha neta”. - Sou eu, vô! – “Não, é minha neta”.  Chorar por ter lembrado de você no meio do dia, e pensar em te visitar em Campinas. Passar mal na balada, de repente. Pedir, no meio da madrugada, para o namorado me levar para a casa, estragando a noite de todos. Chegar ao carro e ouvir uma amiga dizendo que havia uma mensagem da minha mãe para mim: seu avô morreu. Meu avô morreu? Voar para a casa. Não ver a ficha caindo. Lembrar que a vó morreu um dia antes do meu aniversário, e, que dia é hoje? 4 de Junho! Um dia antes do aniversário do meu irmão. O que isso quer dizer? Todos parecendo muito fortes, sem sentimento algum, até. Mas você no caixão. Aquela dor no peito, aquela vontade de te tirar de lá. O sentimento de estar vivendo uma mentira – a negação da morte. Pessoas entrando em contato com o amor que havia por trás de toda aquela casca grossa que você ajudou a construir. A casca caindo, as lágrimas também. Queria carregar meu pai no colo. Queria que você me carregasse no colo. A morte é nunca mais. Mas também é para sempre. Como o meu amor por você, vô.

Posted by ||Nat in 18:32:40 | Permalink | Comments (3)