VAZIO
Escrevo porque o vazio me preenche – por completo. Esse terrível vazio do qual é necessário se livrar, porque está em cada poro, em cada lugar em que deveria estar um pensamento ou um sentimento. Esvaziar-se do vazio é um perigo, é escolher um posicionamento, que é este: me quero estufada. Mas para estar repleta com o contrário do que o vazio, é preciso uma agulha e linhas. Também de uma mão muito firme e uma mente delicada, para que se unam bonitamente todas as linhas coloridas e que se forme um desenho que seja de fácil aceitação: assim é que se aceita a vida, bordando, é assim que se transborda o corpo ou o espírito ou a alma ou o-que-você-acreditar-que-exista.
Pois então é isto: me quero estufada. Mas estou contrariada porque não tenho uma agulha, e se tivesse, tão pra-já que sou, ao invés de bordar picaria meu umbigo e [ bum] o vazio que está dentro de mim faria amor com o vazio que existe pairando no ar e eu talvez não chegaria mais a ser eu, porque tendo estourado, estouraria também o que define minha existência e me faz dizer: eis-me!, e isso seria a orgia do vazio: três nadas num só vazio: 0 + 0 + 0 = 0. Eu-que-todos-vêem zero + eu-que-ninguém-nunca-chegará-a-ver zero igual a mundo zero.
Semelhantes situações acontecem sem que chegue alguém para me alertar: olha, você está ficando vazia, se esvaziando, se esvaindo, vai ficar parecendo uma mulher grávida do grande nada. Não, não, o vazio se instala e de repente você está lá, vazia como um gato sob o Sol. Vazia como o silêncio das pedras presas. Era para ser gratificante, não era? Esvaziar-se não é a grande e desejada meditação? O olhar parado no meio do caminho: os olhos miram a parede, mas não chegam até lá, param nalgum lugar adivinha o quê? : vazio.
Era para ser um descanso, mas o próprio ato de descansar me causa uma profunda angústia, como deitar numa cama sem travesseiro: descansar incomoda, descansar também cansa. Era pra ser uma alegriazinha, como uma borboleta pousando sobre alguma flor, como o céu azul – espelho do infinito Nada, mas não. É esse estranhamento.
Escrevo e não é por escolha, talvez isto me salve, me estufe. E veio um ufa, um bom sinal de que há algo aqui, dentro. Isto já mata o vazio, porque o vazio precisa de sua inteireza para ser o que é: quando há algo, por menor que seja o algo, o vazio não existe ali. Mas o vazio não coexiste com o grande Todo? Sou e sempre serei pequena demais para responder tal questão: e é inútil que se responda. Certas perguntas se bastam.
Tudo é tão igual a tudo, cada palavra sangra o que uma outra já estancou, uma ferida se abre no meio do texto, mas nada que já não tenha sido alcançado por outro escritor: tudo já está escrito, até mesmo isto. Era para ser uma frustração, mas não: é a raça humana me usando como instrumento, é uma devoção a tudo o que é igual: alivia-me ser a mais comum entre as comuns.
Existir-se é raro, por isso o vazio dói. Porque estar vazia é como ter a pureza da vida e isto é de uma crueldade sem igual. Ninguém pode ter a pureza da vida, a pureza da vida é um veneno. Tomar deste veneno é enxergar um mundo onde nada do que se quer alcançar é necessário: exatamente isto – na-da. E dói saber que nada destes sonhos, destes desejos, destes amores, desta profissão, destes sorrisos de que tanto precisamos diariamente é necessário.
Este veneno entra e nunca mais sai: você vê tudo, enxerga tudo, e precisa conviver com a aceitação de que se vive em dois mundos e o mundo que te chama é justamente o oposto do mundo cru. É um terrível sofrimento enxergar que o único mundo que buscamos é o único mundo de que não precisamos para viver. A isto eu chamo de solidão.
Me quero estufada. Me dá uma vida pra viver, um trabalho pra fazer, alguém pra amar, me dá um filho pra cuidar, porque estar só no mundo dá vontade de gritar. Me dá algo a pensar e que eu não pare nunca, porque parar é encarar as desnecessidades que percorrem a minha veia e que não podem habitar o mundo que todos são capazes de enxergar: elas só podem habitar o meu mundo e esse meu mundo só é visitado quando o vazio impera, mas ufa, o vazio se foi, ou ufa, o vazio está indo. Ufa. Ver o vazio de perto é quase morrer. Quase.