prosaica
quando aquilo que precisa ser dito
teima em não atravessar o corpo
não há nada que se possa fazer
rimar amor com dor é que eu não vou
nem escrever um diário
falando de minhas dificuldades
bem que tentei
mas logo nas primeiras linhas
pensei: quem se interessaria por isso?
acho que estou precisando ler
ler para me desfazer um pouco de mim
para me preencher de algo
que seja um pouco menos destruidor
que meus próprios pensamentos
é, ler [quase sempre] cura
mas também depende do que se lê
-clarice sempre cai bem, meu eterno clichê
[fuck off]
lembrei de uma coisa
pequena, gostava de deitar com minha mãe
enrolar meus dedos nos cabelinhos castanhos dela
isso me dava sono
queria minha mãe e uma cama agora
mas a queria antes de tudo o que já passou
porque antes eu me entregava sem medo
nem rancor
era tão bom
era 1 repouso
agora não há descanso
todos os dias me levanto
sem querer deixar a cama
[minha última recordação do aconchego]
o celular está programado
para os “só mais 5 minutinhos”
aperto o botão 5 vezes
e que delícia
enrolei no total
25 minutinhos
depois tomar banho
escolher 1 calcinha
1 calça, 1 camiseta, 1 blusa – faz frio
e é bem melhor fazer isso
quando se tem todas elas
lavadinhas na gaveta
o que quase nunca acontece
porque me falta tempo
e uma máquina de lavar
sentar na frente do espelho
colocar, 1 por 1,
as máscaras que preciso para viver
às vezes só um lápis, um batom
outras o pó, o blush, o rímel
fazer um bico
levantar uma sombrancelha
olhar de perfil
-tô pronta para mais um combate
depois pensar na época
em que não precisava de nada disso
mas agora vivo outra época
em outras circunstâncias
talvez eu seja outra pessoa
que não vê problemas tão graves
em fazer parte do rebanho
porque não vejo lógica
em lutas vãs
[as internas são as únicas
que não são
e não preciso parecer desgarrada
para vencer ou perder
minhas próprias batalhas]
-tô pronta para mais um combate
sigo até o ponto
quando estou muito atrasada, metrô
perco 1 hora e ½
entre o portão
a tiradentes, a nove de julho
e a renato
passo pela catraca
-tô pronta para mais um combate
sento na cadeira
trabalho, penso e sinto
tudo ao mesmo tempo
penso no que me falta
no que me deixa em dúvida
e no que me satisfaz
penso nele
talvez um abraço completo?
não, não, preciso me concentrar
na verdade precisava escrever
não essas porcarias que escrevo
quando a linguagem parece truncada
é, a linguagem tem seus mistérios
não posso dominá-la
ela tem sua liberdade
e eu sou incapaz de feri-la
não por piedade – coisa que não teria
mas por incapacidade mesmo
inabilidade
então,
falei de tudo
menos do que era pra eu ter falado
quando aquilo que precisa ser dito
teima em não atravessar o corpo
não há nada que se possa fazer