Tuesday, April 28, 2009

prosaica

quando aquilo que precisa ser dito

teima em não atravessar o corpo

não há nada que se possa fazer


 

rimar amor com dor é que eu não vou

nem escrever um diário

falando de minhas dificuldades

bem que tentei

mas logo nas primeiras linhas

pensei: quem se interessaria por isso?

 

acho que estou precisando ler

ler para me desfazer um pouco de mim

para me preencher de algo

que seja um pouco menos destruidor

que meus próprios pensamentos

 

é, ler [quase sempre] cura

mas também depende do que se lê

-clarice sempre cai bem, meu eterno clichê

[fuck off]

 

lembrei de uma coisa

pequena, gostava de deitar com minha mãe

enrolar meus dedos nos cabelinhos castanhos dela

isso me dava sono

 

queria minha mãe e uma cama agora

mas a queria antes de tudo o que já passou

porque antes eu me entregava sem medo

nem rancor

era tão bom

era 1 repouso

 

agora não há descanso

todos os dias me levanto

sem querer deixar a cama

[minha última recordação do aconchego]

o celular está programado

para os “só mais 5 minutinhos”

aperto o botão 5 vezes

e que delícia

 enrolei no total

25 minutinhos

 

depois tomar banho

escolher 1 calcinha

1 calça, 1 camiseta, 1 blusa – faz frio

e é bem melhor fazer isso

quando se tem todas elas

lavadinhas na gaveta

o que quase nunca acontece

porque me falta tempo

e uma máquina de lavar

 

sentar na frente do espelho

colocar, 1 por 1,

as máscaras que preciso para viver

às vezes só um lápis, um batom

outras o pó, o blush, o rímel

fazer um bico

levantar uma sombrancelha

olhar de perfil

-tô pronta para mais um combate

depois pensar na época

em que não precisava de nada disso

 

mas agora vivo outra época

em outras circunstâncias

talvez eu seja outra pessoa

que não vê problemas tão graves

em fazer parte do rebanho

porque não vejo lógica

em lutas vãs

[as internas são as únicas

que não são

e não preciso parecer desgarrada

para vencer ou perder

minhas próprias batalhas]

 

-tô pronta para mais um combate

sigo até o ponto

quando estou muito atrasada, metrô

perco 1 hora e ½

entre o portão

a tiradentes, a nove de julho

e a renato

passo pela catraca

-tô pronta para mais um combate

 

sento na cadeira

trabalho, penso e sinto

tudo ao mesmo tempo

penso no que me falta

no que me deixa em dúvida

e no que me satisfaz

penso nele

talvez um abraço completo?

não, não, preciso me concentrar

 

na verdade precisava escrever

não essas porcarias que escrevo

quando a linguagem parece truncada

 

é, a linguagem tem seus mistérios

não posso dominá-la

ela tem sua liberdade

e eu sou incapaz de feri-la

não por piedade – coisa que não teria

mas por incapacidade mesmo

inabilidade

 

então,

falei de tudo

menos do que era pra eu ter falado

quando aquilo que precisa ser dito

teima em não atravessar o corpo

não há nada que se possa fazer

 

 

 

Posted by ||Nat at 18:58:22 | Permalink | Comments (5)

Monday, April 13, 2009

o que não é

Depois de tanta vida, os versos acabaram por pensar mais.

Pensaram tanto que isso já nem causa dor.

Um poema é como um parto. Nem sempre como o sexo:

Muitos poemas nascem doloridos.

Poucos, muito poucos nascem de um gozo.

E estes geralmente não possuem tanta valia.

Um poema é uma criança adulta

Com toda a sua graça e todo o seu ser construído.

Que o faz assim tão desgraçado.

Sua sina é já ter se maturado, passado do tempo.

Não serve para mais nada.

Um poema chega quase sempre atrasado e fraco.

Mas se chega no exato segundo de seu motivo

E resolve uma dor, é o poema franco, que estanca.

Veja bem, isto não é poesia, é uma explicação.

E eu nem precisaria explicar isto, mas aconteceu – tudo bem.

Rir-se dos outros não é poema.

Tentar encontrar a si mesmo em um poema

E não se achar, não tira do poema seus méritos:

Não há culpa em não se encontrar em todos os lugares

Um humano nunca poderá ser onipresente, a isto se chama normalidade.

Fracos, porém, os que culpam os poemas.

Que os chamam de vazios.

Só porque não foram preenchidos por suas palavras.

Quer dizer então que estes poemas são inúteis?

É preciso pensar. E pensar muito bem.

Apesar de que pensar dói.

Esqueci de dizer: um poema não é um choro.

Não é um lamento.

Não é uma utopia.

Não é um amor.

Não é um ódio.

Não é uma sátira.

Não é querer cantar o mundo.

Nem mesmo cantar a ideia de um mundo melhor.

Não é uma vontade imensa de ser compreendida –às vezes até o contrário.

Um poema é seletivo, por natureza.

Escolhe a quem quer dar a própria compreensão.

Mas foge às regras: sempre pode ser outra coisa.

Sabe que certa palavra grita a um ouvido, e para outro, permanece surda.

Mas é preciso que se saiba,

que se entenda isto: que isto não é um poema.

Porque um poema não é um pensamento.

Um poema não é uma filosofia.

Um poema é língua afiada que corta a carne dos ouvidos e dos olhos com as palavras mais ou menos certas.

E estas estão longe, muito longe de serem as palavras certas.

Quem quer comunicar, não escreve poema.

Escreve jornais. Escreve crônicas, contos, novelas.

Escreve poema aquele que quer deixar uma ponta de dúvida.

Umazinha qualquer que seja.

Nem que seja a dúvida de como aquela construção inédita surgiu.

O poema é a ponta de uma faca afiada.

É com ela que ainda vou me matar.

 

Posted by ||Nat at 14:49:50 | Permalink | No Comments »

Tuesday, April 7, 2009

 

 

não há mais espaço

nem mesmo o meu traço

eu disfarço

 

não há mais vazio

nem mesmo do vil

eu desvio

 

não há meio termo

nem mesmo o inferno

eu temo

 

Posted by ||Nat at 23:22:20 | Permalink | No Comments »


sinta-se à vontade
entre meu sexo
e minha sintaxe


Posted by ||Nat at 19:42:02 | Permalink | No Comments »

estrago  estrada

 

teu caminho

na minha vida

é uma tortura

sem parada

Posted by ||Nat at 19:27:49 | Permalink | Comments (1) »

comunicado extralinguístico

o que amo
está fora do homem
está fora de ordem
está fora de mim

o que amo
está fora do que digo
está fora do que escrevo
está fora do que minto

dentro da realidade das coisas
não da palavra <<coisas>>
mas daquilo que é irrepresentado

o que amo
nunca poderá
ser comunicado

Posted by ||Nat at 18:51:55 | Permalink | No Comments »