Wednesday, March 18, 2009

agenda

 

meu nome

um endereço

na tua agenda

de homem


na minha

um embaraço

qualquer

um “quem sabe”

de mulher

 

aparece fazendo

estardalhaço

some

me levando

um pedaço


tanto faz

cansei do meu nariz

de palhaço

Posted by ||Nat at 17:26:32 | Permalink | Comments (4)

Tuesday, March 17, 2009

função poética


debruçar uma língua esquiva

em seu próprio desejo

é a função do beijo

não a função do amor,

do recado

do que respondo ou indago

a língua quando sobre si repousa

fica toda palavra
se diz, torce em poema

e acaba por fazer

o maior estrago

 

Posted by ||Nat at 18:08:05 | Permalink | No Comments »

Friday, March 13, 2009

[aos poetas por essência]

loucos, cortaremos os pulsos das palavras
para que só restem os impulsos
expulsaremos a beleza pretendida
destemidos por nos assumirmos feios
soltos, percorreremos caminhos inexplorados
confundiremos as idéias já entendidas
o que restará - nada a não ser versos
nada - a não ser nós pelos avessos

Posted by ||Nat at 19:13:25 | Permalink | Comments (2)

Monday, March 9, 2009

Cartinha à Clarice

Minha querida,

Hoje, Clarice, agradeci por você ter escrito “Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres”. Agradeci imensamente. Tudo tem sido tão irônico. Será que meia palavra basta? Com riso e com raiva, creio que sim.  Mas Clarice, perdoa quem nomeia como seus aqueles textos que não têm sequer um traço da sua autoria. Eles não têm culpa de nada.

( mas bem que poderiam conferir a autoria antes de citar o seu nome, né? )

Ah, Clarice, seus livros sempre me salvaram. Mas esse, em especial, me salvou mais - e por duas vezes! Uma quando o li, outra quando o indiquei. E essa sensação - a de ser salva -  é como um sonho, o mais real que tenho vivido.

Me recomende ao deus e dê lembranças ao diabo!

Beijos carinhosos,

Sua Natacha

Posted by ||Nat at 17:09:42 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, March 3, 2009

É difícil ser bailarina de caixinha de música. Dançar com um par de plástico. Rodar em círculos, ao som da mesma música, da mesa música, da mesma música, e  sobre o mesmo espelho. Entender que o espelho é o limite: não se pode passar dali. Saber que um dia nunca mais ninguém vai dar corda. Nunca mais. E que será esquecida para sempre. Para sempre.

Posted by ||Nat at 18:07:33 | Permalink | No Comments »

a dançarina

Invento que danço para você. Estou de vermelho e preto, evitando seus olhos para que neles os meus só se encontrem quando eu assim o quiser, compenetrada nessa tristeza que é só minha e que nunca ninguém poderá compreender. Há um certo mistério no começo da música, o mesmo mistério que há entre nós. É um mistério viver. É mister dançar. Meu coração dispara e então eu faço um primeiro movimento, minha mão direita sobe ao alto e faz círculos em torno de si. A mão desce e então travamos a luta: a música disparada, não sou sua e você não é meu, no entanto, participamos de um mesmo ritual que é nosso e de ninguém mais. Fixado, tentando compreender meus movimentos e talvez decepcionado por eu não me movimentar tanto assim, você permanece sentado, lutando com sua própria alma para não dar um salto e me pegar no ar. De repente tudo o que sinto se estoura e nada mais faz sentido. Apenas a música é sentida, a música sou eu, meus próprios movimentos são a música. Por que me olha assim se sabe que não te posso? Danço para que me olhe, e nisto se dá o amor. Você não pode dançar comigo, não é o meu par. Se soubesse o quanto ensaiei para quando esse dia chegasse.  E quanto doeu achar que nunca chegaria. Assim, esqueci tudo o que ensaiei, e agora você bateu  à minha porta. Sem dizer palavra, permiti que entrasse, apontei o chão para que se sentasse, e você sentou em cima do silêncio que eu, com os olhos, implorei. Depois de implorar, procurei em todos os lugares de mim aquela dança que, em segredo, havia prometido entregar a você. Então é isso? Ensaios não são permitidos? Então o amor é uma dança que acontece? Por que me olha desse jeito, como se a culpa fosse minha? Por pura raiva, me ponho então a improvisar. Meu corpo todo faz movimentos bruscos, minhas mãos abrem e meu tronco todo se inclina para trás – por que não veio antes? Minha cabeça faz um meio-círculo – por que me deixou por tanto tempo? Meus quadris ganham vida própria – você sabe que te perdoo sempre, todas as vezes que a sua culpa inventada necessitar da minha indulgência. Meus olhos encontram os seus – por que está tão decidido agora, agora que não é meu par? Agora que esqueci toda a coreografia e todos os movimentos viraram nuvens dentro da minha cabeça, sem que eu possa encontrar suas formas? Você não é meu par, decidiu não ser, é impossível dançar com você agora. Ainda sem dizer palavra, você compreende tudo o que meus movimentos comunicaram. Não me tocou, só na alma. Me olhou por 10 minutos, depois de ter silenciado a música e meu corpo que, calado, falava ainda mais. Quase não piscou. Foi quando você descobriu que deve tocar para que vivamos: a sua música, inventada, improvisada. Por isso você não pode ainda ser meu par. Quando a música e a coreografia estiverem maduras, como se fôssemos dois ímãs, seremos puxados um para o outro. Só assim poderemos encontrar a perfeita sincronia. Seus olhos então sorriram, sua boca não. Eu virei de costas para disfarçar as lágrimas. Quando me virei, o que restou de você foi uma porta batendo. Suavemente.

Posted by ||Nat at 17:59:24 | Permalink | No Comments »

Monday, March 2, 2009

dois sonhos, duas medidas

uma mesma palavra pode ter dois pesos? a resposta é sim, pelo menos espero que seja. a palavra <<sonho>>, por exemplo. quando uma música tem gosto de sonho, o significado da palavra <<sonho>> é abstrato. quando a palavra <<sonho >> sounds like nothing else, o significado é tão tangível quanto um amor. imaturo, mas ainda assim, um amor.

essa palavra que assusta e que parece ter um só peso: amor. mas não tem. não. eu sei que não. pesa de acordo com o coração daquele que o sente, e além. pesa como o som. quanto menos se fala, mais pesa. quanto mais se fala, sei lá. parece não ter peso algum. o amor ganha leveza. ganha em culto, perde em oculto.

é tão bonito isso, de as palavras existirem e serem iguais. é bonito saber que um ser humano é que dá a elas vida: assim me sinto mais solta. menos presa a elas: palavras não são nada sem o ser humano, que serve para transgredi-la quando revela algo, escondendo outra coisa.

oh! é isso o que amo nas palavras. o poder que elas dão ao ser humano de falar escondendo. de esconder falando. as palavras <<sua>> e <<existência>> cabem perfeitamente no eixo sintagmático dos meus períodos. e podem ser trocadas, paradigmaticamente, por <<sonho>> ou <<amor>>. todas elas têm o mesmo peso. o exato. o de sempre.

te perdoo por ser tão humano e dar peso às palavras. te gosto por ser tão humano e dar peso às palavras. te quero bater por isso. te quero acariciar por isso. e quero dizer que ver isso em você me faz enxergar o mesmo em mim. sendo assim, preferiria ficar calada a te dizer tudo isso: não tenho o direito. sou imensamente igual: uso as palavras, dou peso a elas, e ninguém mais sabe disso. do peso das minhas palavras. das minhas mentiras doidas que invento pra viver, só pra isso, pra viver.

eu preferiria ficar calada, mas sabe, né? as palavras pesam tanto que as sinto no estômago. preciso me livrar delas, e aqui estão. eu ia tomar o peso que você deu à palavra <<sonho>> como um beliscão. e ia tentar acordar. mas não.

Posted by ||Nat at 21:21:03 | Permalink | Comments (1) »

Musica Futura

Um raio de luz passou por detrás dos meus olhos e era música. É isso o que você faz comigo. Faz as coisas virarem música. E as músicas virarem coisa. Coisas absurdas. Absurdamente li[n]das. Era música, virou luz. Virou luz, fé e esperança. Virou uma luz que chora com saudade do futuro. Depois apagou, pra poupar energias. A luz de verdade está no fim do túnel, e ainda levará um tempo para que eu consiga andar com meus pés doentes e chegar até lá. Até lá.
Posted by ||Nat at 18:49:33 | Permalink | No Comments »