Thursday, February 19, 2009
inteira para o futuro
espero como se fosse fácil. no fim das coisas, é mesmo fácil esperar. os dias amortecem, e a espera acontece sem que possa ser chamada de espera. é como ter 16 anos querendo logo ter 18. no fundo, eu sei que não poderei fazer o tempo passar mais depressa. tem dias que te esqueço, inesquecível. mas não é de um ter esquecido completamente, é de um ter escolhido a vida leve para não envelhecer rápido demais, para não estar com a alma enrugada quando o futuro resolver acontecer. com os pés fincados no chão e o nó da alma mais frouxo, vou vivendo. vou vivendo alegrezinha, peste, decadente e mais bagunceira do que nunca. sabendo muito bem que não tenho sido o meu melhor. sabendo que talvez você possa desistir. os meus pés estão sim, fincados em um presente, fincados em um chão, mas esse mesmo chão é feito de nuvens. então caminho sabendo da volatilidade daquilo que tem me sustentado: qualquer hora posso cair no abismo que sou eu. e cair no abismo que sou eu significa muito mais do que uma queda: é uma ascensão ao topo de meus sonhos. sonho igual a futuro. sonho mais futuro igual a filha. passado mais presente igual a hoje. um mais um nem sempre igual a dois. você tem o direito de desistir. eu tenho o direito de tentar. por isso espero: não estou pronta. e quando eu estiver? o futuro estará preparado para mim? quero uma vida que não esteja gasta nem pelo tempo, nem pelas superfícies, nem por nada que não seja essencial. quero uma vida mansa e inquieta, quero estar preparada para tudo isso. estarei preparada? eu, que esperei apenas 8 meses para nascer, que desde sempre estou acostumada a ser um total despreparo. será que um dia estarei preparada? acho que sim. o despreparo não me impede de avançar, então avanço, avanço, cega como uma criança feliz. pressinto o futuro, às vezes me acho mais perto – é quando pareço estar bem perto de mim mesma. naqueles dias em que acordo sem medo de ser inteira. e só quando eu for suficientemente adulta para me ser inteira, sem meias verdades, nua e crua - eu mesma – estarei preparada para a imensidão do amanhã. “não quero nada pela metade”. não me quero pela metade e não quero o meu futuro pela metade. futuro, estarei inteira quando você vier. prometo.
[ouvindo trentemöller - miss you]
ônibus
travo a luta
me procuro
não me acho
olho dentro
não me curo
olho fora
não me encaixo
meio às tontas
me esqueço
e por esquecer
me aconteço
volto à vida
encaro o dilema
dou um grito
-no engano, há saída
-no estalo, a solução
perdida
estou no poema
que seria escrito
se eu tivesse
caneta à mão
Monday, February 16, 2009
me faça
perder as estribeiras
me amassa
me encaixa
me deixa
sem eira
nem beira
me come
pelas beiradas
ou então some
sem deixar
pegadas
Friday, February 13, 2009
visão semiótica sobre a vida
[antes de nascer, pretexto
enquanto se é, discurso
e só ao morrer, texto]
.
In - consciência
Não é pra ganhar um amor
Não é pra chorar uma dor
Não é pra treinar o português
Escrever não tem sentido, nem razão
Não é pra explicar o mundo
Não é pra pensar mais fundo
Não é pra descrever o coração
Não tem ingenuidade nem malícia
Não é para esconder rubores
Não é para falar de flores
Não é pra exercitar a falácia
Escrever não é lógica nem fé
E quando acha que descobre o que é escrever
É quando menos sabe o que é
Wednesday, February 11, 2009
acid treep
- por que todas as árvores parecem sempre dizer adeus?
-porque elas são antigas, quase eternas.
-mas quando o tempo está parado, elas desistem de acenar.
-esse é o momento mais perigoso.
Monday, February 9, 2009
Quero não dizer nada
Ser levada
Pela língua
A uma terra inabitada
Onde o vazio
Impera,
Indescritível
Onde o tudo
Reina
Indissolúvel
Onde o nada
Existe
Interminável
Onde a verdade
Resiste
Impenetrável
Onde o agora
É sempre
Eternizável
Mas sou um ser
E por sê-lo assim,
sem trégua, imaturo
Os caminhos
Por onde a língua
me [e]leva
São sem fim
E quase sempre
Obscuros
palavra I – a redenção
a palavra é o grito que representa uma coisa que é muda e que jamais pode ou poderá ser representada, a coisa: esse é o maior sofrimento do poeta: dar som àquilo que nunca deixará de ser silêncio. poeta é o que trabalha com a matéria do impossível. poeta é aquele que veste o que nunca deixará de estar nu. o poeta é a própria nudez em forma de carne. sua palavra é suor e soa alto. palavra é o tronco que ecoa oco, mas que esconde e mostra seu cerne.
todas as palavras já foram ditas.
palavra II – a revolta
todas as palavras - essas malditas – já foram inventadas e já estão ditas. quando nasci, não sabia falar. quando soube, não pude escolher a palavra chichume para designar uma coisa que é uma panela. não pude escolher a palavra crelho para designar uma coisa que é casa. não pude escolher a palavra zomburo para designar aquilo que conhecemos como loucura!
e tem gente que ainda acredita em liberdade. tolos.

