Carta inacabada e não enviada de Soledade a um homem estrangeiro
Juro que admiro esse seu modo organizadinho de ajeitar os ícones da sua área de trabalho, [content supressed]. Acho engraçadinho esse seu jeitinho de tentar organizar seus sentimentos, confundindo-os com a razão. Você foi embora, mas deixou tantos rastros… ficou impossível te esquecer, parece até que nunca saiu de perto de mim. Mas conheço também as tuas mulheres, elas são bonitas, me parecem inteligentes. E sei que sempre dá um jeitinho de ser especial para elas. Essas coisas inventadas, que servem para marcar uma relação: um mimo aqui, outro ali. Demarcação de território. Assim como foi comigo, [content supressed]. Até me recordo, quando, por pura distração, acabei usando, com outra pessoa, uma palavra que você havia monopolizado para o nosso relacionamento. Mas se fui para você o mesmo que todas as outras foram, os seus rastros me enganam muito bem, porque me fazem sentir única. Se você fez tudo isso de propósito, quero que saiba que, se eu descobrir a veracidade de minha desconfiança, o que eu duvido, porque você sempre foi bastante inteligente e perspicaz ao defender seu ponto de vista, posso ser capaz de te perdoar. Mas os rastros serão apagados para sempre. Mentira. Eu nunca tive nenhum controle quando o assunto é você. Homem, homem. E pensar que um dia tive vontade de ajudá-lo a sei-lá-o-quê. Hoje me sinto incapaz de reerguer meu próprio corpo. Queria me sentir pequenininha novamente. Pequenininha, aninhada no teu peito. Queria sabe se você ainda usa aquela calça de capoeira. Se ainda gosta do mesmo incenso. Mas há sempre o “mas”. [content supressed]