De repente, você descobre que tudo aquilo que você já escreveu e vem escrevendo não passa de uma coisa chata e repetitiva: tanto quanto você mesma. Descobre que não é assim que deve ser, apesar de ter sido por tanto tempo.
Então você fica descontente, porque não quer uma autobiografia. Você escreve em busca de si mesma, mas não era pra se mostrar. Deveria ser para inventar. A partir da própria referência, claro. Mas não a partir da própria vida. Então você descobre que precisa ouvir mais as pessoas, para descobrir o que existe nelas e que não existe em você.
E descobre que está tão surda, que perdeu a paciência, que perdeu um pouquinho da humanidade. E fica se debatendo para mudar. É preciso mudar a escrita? Então é preciso mudar a alma. Mas há a preguiça. Há estagnação. Há o destino que, fatalmente, se cumpre. Há que se esperar que o que tem de ser aconteça. E há o desespero. A vontade de fazer os minutos correrem mais rápido, para ver no que tudo isso vai dar. No que você vai dar. Há tudo isso.
E você pensa que deve passar um tempo sem escrever, para não fazer besteira. Então há o vazio. Há o nada dentro da existência. Há a resistência em fazer o que deve ser feito – mesmo sem saber o que é que deve ser feito. Imagina só: você fica sem fazer o que sempre fez e sempre amou, o que sempre aceitou que deveria ser feito: escrever. De repente não aceita mais o próprio modo. Não aceita mais o próprio modo de existir.
De repente se preocupa com quem vai ler, e se envergonha tanto por isso! Porque, antigamente, nem mesmo se importava com o leitor, nem se lembrava que alguém poderia ler. Aí sua alma se debate dentro do corpo, tentando encontrar uma saída: antes a saída eram os dedos, agora você está entupida, pois sua alma não vaza mais. E descobre que talvez, seja preciso entupir ainda mais. Se intoxicar. Como quando você sabe que está gorda e precisa se sentir ainda mais feia para resolver tomar uma atitude.
E você abaixa a cabeça, porque, no fundo, no fundo, intui que é mesmo assim que deve ser. Que isso tudo é imaturidade da sua parte, que você apenas não sabe lidar com a mudança. E vem à sua cabeça os amigos de antes, de lá. A falta que eles fazem. E você pensa em como lidar com o que eles pensam a seu respeito. Eles ficaram lá. Você mudou. E você os ama, mas eles não a conhecem mais. E talvez não amem mais o que restou de você em você. E dói.
Você quer escrever, mas não consegue mais chegar ao fundo de si. Não sabe lidar com o que se tornou. Só sabe que vai ter que esperar: sem saber por quê, exatamente, precisa esperar. Tenta se acalmar, rezar para um deus que nem sabe se existe. Fecha os olhos e diz: deus, se você existe, cuida do meu pai, mãe, irmão. E se você não existe… bom. Então eu sou uma idiota, falando com ninguém. E sente saudade da crença, da fé, da religião que, de alguma forma, foi se perdendo.
Sente saudade de viver sem tentar encontrar uma lógica, da inconsciência. Da ingenuidade que acabava te levando para onde você tinha de ir. Então é isso? Quando você se torna consciente, perde a capacidade de andar sem rumo? Quando você se torna consciente, você tem um objetivo tão fixo, um “onde chegar”, que te faz perder os detalhes aparentemente menos importantes do caminho? Aparentemente menos importantes, mas que davam a você o colorido da vida.
E você se cansa de falar, falar, falar. E acaba um texto que nem merecia ter sido escrito.