Wednesday, November 26, 2008

Suicídio
 
Ficar em silêncio me faz perceber que dentro dele posso sentir todas as palavras do mundo: até as que não existem. O meu grande problema não é a linguagem. A verdade é que todos os meus problemas se refletem nela: se estou perdida, também está perdido o meu dizer. Estou me sentindo interminada, e sem perspectiva: interminados e sem perspectiva estão os textos que redijo. Talvez eu deva deixar de escrever por um tempo. Mas é fato: eu não aceito esse hiato. Eu me obrigo a escrever, da mesma forma que às vezes tento me obrigar a querer coisas que na verdade eu não quero.
 
Antigamente não era assim. Talvez porque eu não era assim, tão lógica. Para falar a verdade, eu tinha pena das pessoas que se sentiam como eu me sinto agora. [ Paro um momento para saber se conto uma história ou se quero que esse texto seja lírico ]. Agora tudo o que eu sinto é vergonha, porque me perdi de vista.
 
Cadê aquela pessoa que flutuava por aí, com um caderninho na mão, escrevendo no trem, no ônibus? Aquela pessoa virou uma sombra. Uma criança que se escondeu em mim, não sei onde. Onde está a criança? Ela sim, tinha fé. Acreditava nas pessoas e nas coisas e nas idéias sem medo de estar errada. Essa mulher aqui, que você vê, sufocou aquela criança com o travesseiro e a jogou debaixo da cama.
 
O tarô me disse que o que preciso não é comunicação: é comunhão. Vou tentar ficar em comunhão comigo mesma. Com o mundo. Ouvir mais, falar menos. Para isso, deixarei de escrever – você sabe do que eu estou falando. É claro que eu não poderei de fato deixar de escrever, uma vez que esse é o meu ganha pão. Mas agora entrarei em contato com o meu ser mais íntimo: permanecerei calada. Talvez, muda, as coisas mudem. E talvez essa seja a melhor e mais importante morte da  minha vida. Adeus.
Posted by ||Nat at 19:59:44 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, November 19, 2008

Perdi o ritmo
E o tino
Perdi o tesão
E o destino
Perdi o sotaque
E o batuque
Da cidade
Fiquei só
Com o tique-taque
Perdi o fluir
O deixar ir
O saber partir
O repartir
Já não sei mais
Concluir
Que mais perdi?
 
Será que perdi o jogo
Ou a partida?
Perdi a alma
E a flora
Perdi a fauna
E o que mais?
Fiquei no escuro.
 
Será preciso perder o agora
Pra ganhar o futuro?
Posted by ||Nat at 17:51:09 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, November 18, 2008

- Alô?
-
- Oooi, tá me ouvindoo?
-
- Ôôôu.
-
- Tá bom… não quer responder, não responde. Mas eu preciso falar com você. Faz tanto tempo que me perdi. Eu não sei mais quem eu sou. Você existe? Eu existo? Quem é você? Tanta coisa mudou… eu cresci, sabia? Não sou mais virgem, já usei drogas, nunca matei ninguém. Tenho uma coisa para te contar: vou me casar. Não sei quando, mas já sei com quem. É o amor da minha vida. Você sabe quem é. Aquele que um dia vi em uma baladinha, ele estava de regata vermelha e dançava sem se preocupar com nada, sem nem olhar ninguém. De repente uma gorda de vestido preto o agarrou e eu tive ciúmes ou inveja ou não-sei-o-quê, mas não foi um sentimento bom. Nem o nome dele eu sabia, mas eu tinha alguma certeza em mim: só não sabia qual, mas era referente a ele. Lembra? Depois de uns quatro meses o encontrei e fiz uma amiga dar meu telefone para moço. Descobri o nome, o que não vem ao caso. E até hoje não sabemos como tudo aconteceu: eu nunca fui de chegar em ninguém, e ele é tímido-introspectivo-inseguro, como foi me ligar? Que papinho, né. Tô me sentindo uma idiota. Você não vai falar nada mesmo? Posso te contar outra coisa? Lembra aquela fé? Nas pessoas, no futuro, na vida em geral, em uma profissão que fosse boa para mim e para a sociedade? Não se decepcione, por favor. Eu não sei como aconteceu, foi tão distraidamente que a perdi… e não a encontro mais em lugar nenhum. Duvido de deus com uma grande culpa, porque no fundo sinto que algo como “deus” existe, não necessariamente na forma com que o pintam, mas sabe aquela coisa do tudo no todo ao mesmo tempo que o vazio no nada? Aquela coisa vazia que completa e vice-versa? Não sei por que duvido… eu que orava com tanto gosto, que acreditava em amigos do além, hoje assim, tão descrente… quem diria? Me perdoa por deixar me corromper? Não é culpa da cidade grande, eu é que fui muito fraca. Me deixei ir levando e agora estou assim. Longe de tudo, do meu pai [tenho medo de que ele esteja ficando doente], da minha mãe [ela está cada vez mais independente!], do meu irmão [como está grande, até namorando!]. Longe de você…será que pode me ouvir? Tenho vontade de voltar, mas preciso saber onde isso aqui vai dar. Quero ficar perto do meu amorzinho [oh, como é adorável sentir a pieguice do amor lambendo minha alma!], quero vê-lo dormir, acordar, fazer sua comida, “ser seu pão, ser sua comida, todo amor que houver nessa vida, e algum trocado pra dar garantia”. Logo agora que as coisas começaram a andar pra frente, parece que ouço um chamado lá de trás, dizendo: volta! Eu não sei mesmo o que fazer, se sigo a minha intuição, que me diz para ficar aqui, ou se meu instinto, que me grita de lá. Ah, caramba… já estou há tanto tempo aqui falando… tem certeza que não vai me dizer nada? Nem mesmo uma palavra de conforto? Me fala um poema que alivie minha dor? Um que pegue bem na veia? Eu não sei mais escrever, porque eu não sei mais quem eu sou: o que escrevo sou eu e eu estou apagada, apagando… Me perdoe… não posso mais…agüentar… não consigo falar… vou desligar, porque odeio quando alguém sabe que estou chorando.
Posted by ||Nat at 11:44:45 | Permalink | No Comments »

Wednesday, November 12, 2008

Todas as idéias humanas
Pairam sobre minha cabeça
E formam uma nuvem
De onde caem
Gota a gota
Pesando mil toneladas cada uma
 
As gotas gordas não cabem em mim
Eu que peso 58kg
Eu que meço 1,68m
E me canso de dizer:

Não sou corpo
Para todas as idéias humanas!
Me falta espaço
Para ser.
E ainda tenho que ter
Espaço para todas as idéias
humanas?
 
Mas diz a grande voz:
O poeta tem o peso
E o tamanho do mundo.

Então me calo consentida.
Observando a chuva cair.

Posted by ||Nat at 18:56:29 | Permalink | No Comments »

Friday, November 7, 2008

É mesmo necessário sangrar a língua? Calejar os dedos? Emaranhar os pensamentos? Dar forma ao que antes era soltura? É realmente necessário matar o conteúdo? Cortar o sentido? Enduplar o sentido? Perder os sentidos? Encurtar o entendimento? É realmente necessário ser diferente? Ter um estilo? Não deixar que a mensagem fique às claras? É preciso sofrer para escrever? Lutar? Por que não deixar vir? É necessário ser razão? Ser artimanha? Ser arte? É necessário ser pioneiro? É necessário que as palavras não sejam óbvias? É necessário que elas combinem foneticamente?

Eu não quero articular.

Posted by ||Nat at 19:52:56 | Permalink | No Comments »

Thursday, November 6, 2008

Esqueci as metáforas
Sugaram meu imaginário
Me tiraram as rimas
Me deixaram formal
Me calaram a voz
 
Vazia de símbolos
De saco cheio dos signos
A carga emocional das palavras se esvaiu
Meu léxico decaiu
E os meus sons não combinam mais
 
Se as ruas não possuem ouvidos
Se as pessoas não possuem tempo
Se o tempo é todo perdido
Se o que digo de nada vale
Pra que mesmo escrever?
 
Se  o meu sono me cobre
E se me cobram as palavras ganha-pão
E se estou coberta e cega de razão
Peço que ela não me impeça mais
De escrever solta, sem questionar o ato
 
Que os carros não atropelem mais minhas idéias
Que as buzinas não ensurdeçam as minhas vontades
Que os materialistas não contagiem minhas necessidades
Que as horas não controlem mais as minhas ânsias
Que os dias não me tragam cefaléias
Que os salários valham menos que a minha emoção
Que o amor não enfrente mais distância
Que pulem para o papel as palavras do meu coração
Posted by ||Nat at 14:17:00 | Permalink | Comments (1) »

O poema não quer ser feito
Matura na adega da carne
Seu defeito é a infância
A falta de ritmo e de sonoridade
 
Mas deixa, deixa maturando
Um dia vira vinho
E enlouquece algum boêmio
 

 

Posted by ||Nat at 14:15:46 | Permalink | No Comments »

Pecado Capital

invejo os beijos
nos metrôs de SP
desço as escadas
rolantes meus pensamentos
distantes meus sentimentos
meu paraíso é o interior

Posted by ||Nat at 12:51:46 | Permalink | No Comments »