Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

7ntaporcentoáguA

Eu sou setenta por cento água. Não há no mundo mãos que possam me segurar.

Parada, apodreço. Sou líqüida, gasosa ou sólida: tudo depende do meu estado e da temperatura daquilo que comigo entra em contato.

Me misturo aos outros muito facilmente. Exceto aos densos e oleosos, a menos que eu ensaboe bem a relação e me sinta protegida.

Sou capaz de matar sedes, mas também posso matar de afogamento. Por isso, quando mergulhar em mim, traga muito oxigênio.

Sou dócil, mas algumas de minhas ondas são traiçoeiras. Posso mandar embora toda a sujeira, com muita facilidade. Mas também posso mantê-las onde passo, e fertilizá-las.

Se me sinto ameaçada ou pressionada, a temperatura sobe. Fico gasosa e me perco no ar, fugindo por todos os lados. Ou então me congelo e solidifico, e quem mergulha de cabeça em mim, racha o crânio.

Transbordo quando não caibo na pessoa-recipiente com quem me relaciono. E me frustro.

Por vezes, sofro sublimação: vou do gasoso ao líqüido em um só instante, me perco no ar e escapo, e volto a ser dura e machuco.

Mas gosto mesmo é da minha liqüidez, minha liberdade, minha fluência fluida.

As impurezas são inevitáveis. Antes, sonhava com a destilação. Hoje, não. Aceito a minha condição impura e vivo assim, passando por debaixo da terra, trazendo comigo sais que me enchem de conteúdo.

Eu deixo um rastro úmido por onde passo. Cabe a quem passar pelo solo que eu umideço escolher se quer semeá-lo ou secá-lo.

Não quero me importar com essa escolha… eu quero só continuar correndo feito um rio, porque morro de saudades do mar.

Você nunca pode mergulhar na mesma "mim" mais de uma vez. Eu nunca sou a mesma mim.
Escrito por ||Nat em 21:09:40 | Link permanente | Comments (2) |

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

preciso de:

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até não caber mais.





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até não sentir mais.




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até não assustar mais.



Mas do que eu mais preciso mesmo é de vento no rosto, e ser eu mesma. Da liberdade de ser eu mesma.
Escrito por ||Nat em 00:08:21 | Link permanente | Comments (1) |

Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Não dê tempo ao tempo. Ele pode não devolver o presente.
Escrito por ||Nat em 22:30:13 | Link permanente | Comments (1) |

Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008



Aviolada

Não
sou violão pra te dar corda.

E se um dia for. todas as cordas, rebentas de meu corpo, que eu for capaz de te dar, arrebentarão.

Você não sabe me tocar.

Eu, esta aviolada moça que te aponta o dedo.

Dissonantes somos nós. Tão presos em nós. Desarmonia a sós.

Dedilho esta prosa sem dó, porque sei: teus dedos já estão calejados, tão pedras quanto o teu coração. E quanto o meu, também.

Nunca mais me pegue assim pelo braço, ou assim, no meu pé.

Eu grito em desafino, só pra te aporrinhar.

Se fosse virtuoso, seria mais fácil me ganhar.

Mas peca demais. Demais. Tanto quanto eu.

Não sabia, não? Você me acha assim, violão e merecedora. Mas na verdade sou oca, oca como um violão.

Mas eu não sou um violão. Na verdade, sou oca de sentimento. E louca para me soltar no ar, como uma nota ao vento
.

Escrito por ||Nat em 18:29:50 | Link permanente | Comments (2) |
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