Friday, June 27, 2008

: fala que me ama, fala que me ama! Eu nunca pedi isso pra ninguém: fala que me ama. Estou ficando louca? Por que a loucura, se era para eu estar tão segura? Você me ama, você diz, sempre diz. Mas eu preciso deitar em você agora, sentir as suas mãos nas minhas costas. Me sinto tão menina quando você me segura, suas mãos me protegem do mundo, me protegem de mim. Me dá aqui a sua mão, me segura, me aperta, me protege! Oh, meu pai, o que está acontecendo comigo? Esqueça tudo o que eu escrevi um dia, eu estou aprendendo a falar. Eu nunca soube falar, mas agora estou aprendendo. Essas são as minhas primeiras palavras, minha língua era virgem! Estou aprendendo a falar, tudo o que eu disse até hoje foi uma imitação, a imitação dos maiores, eu imitava e pensava que, imitando, falava. Como um bebê que solta ruídos e acha que estava conversando. Eu falava a palavra amor por imitação, eu falava “eu amo” por imitação, eu queria imitar o mundo. Mas veja bem, agora estou aprendendo a falar. Hoje, olho para você e digo: eu te amo. Se um dia disse isso para alguém, não era mentira, era inocência, era eu bebê que não sabia falar, por isso imitava as palavras dos mais velhos. Quero apagar tudo o que escrevi, quero apagar tudo o que disse até hoje: era tudo imitação, eu tenho vergonha por ter sido tão inocente, tão imitadora. Hoje eu olho para você e digo: eu te amo. Eu poderia jogar fora as palavras, eu nem precisaria falar, mas você existe e é necessário que saiba. Eu quero que saiba que eu te amo. Poderia mostrar com a vida que corre, com os gestos, com as mãos, a boca, com as minhas escolhas. Mas é que eu aprendi a falar, entende? Não estou mais imitando ninguém, quero usar a linguagem. A eterna imperfeita linguagem. Queria uma palavra plena, mas ela não existe. Então digo: te amo. Mal aprendi a falar, já quero jogar a palavra fora, a palavra que tem o objetivo de unificar, mas que só sabe dividir. A palavra incapaz.  Eu te amo! Compreende o que eu digo? Porque é impossível não dizer, e quando digo que te amo, não imito a nada, nem a mim. Porque eu não tenho a experiência anterior do amor para imitar, eu nunca tive o amor e sua bagagem, eu achei que tinha, mas não tinha. Era cópia. Tudo é tão novo. Tão meu. Esse amor eu não vi na novela, não parece nem meu pai, nem minha mãe, nem ninguém. É meu, original, eu criei sem saber, e agora ele está aqui, adolescente. Mal-criado na minha frente, me pondo louca. E esse amor, por ser novo, me deixa insegura. Fala que me ama! Será que você já aprendeu a falar? Eu não quero que repita as minhas palavras. Se for preciso, invente uma palavra qualquer, balbucie em sua própria língua inventada o que quer dizer: eu te amo. Juro que vou compreender, assim como compreendo que me ama só de me olhar, só pelo modo com que você sorri. Pelo modo com que acorda, me abraça e me dá inúmeros beijos. Juro que vou compreender. Fala que me ama. Eu preciso ouvir que me ama. Você sempre fala, mas você já aprendeu a falar?

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Thursday, June 26, 2008

Quero inventar palavras para dizer o que nunca poderá ser dito.Tenho tanto para dizer, no entanto, são tão poucas as palavras que existem. Será que eu quero falar sobre sentimento? Não, não quero. Eu não sei o que eu quero. Quero falar sobre o cotidiano? Não, não quero. Nem sobre as putas, nem sobre os mendigos, nem sobre as crianças que baforam cola em plena luz do dia entre o Terminal Bandeira e a Estação Anhangabaú. Nem sobre o ego de algumas pessoas, que têm força centrífuga – nos sugam a essência – e também centrípeta – jogam-nos para bem longe de nós mesmos. Não, não é sobre isso que eu quero falar. Tampouco sobre saudades. Sobre isso, eu realmente, não quero falar. Eu sou toda saudade, cada milímetro de mim é saudade. Dele. Mas eu já disse que não queria falar sobre saudades. Parei. Quero menos ainda falar sobre desgosto. Sobre a monotonia, sobre levantar, trabalhar, ir para casa, dormir. Mas não! Eu já havia dito que eu não queria falar sobre cotidiano. Seria maravilhoso querer falar sobre felicidade. Mas eu não quero, também. Eu não sei o que eu quero. Eu não queria estar aqui. Não, na verdade estar aqui é minha opção. Então eu quero estar aqui. Se não quisesse, não estaria. O que eu quero? Eu quero ele. Eu quero ele dentro de mim. Eu quero ele ao meu redor. Quero ser mulher. Minha mulher, mulher dele. Ele já é meu homem. E o pronome possessivo é pura falta de alternativa. É de amor, então? Era de amor o tempo todo que eu estava tentando falar? Eu queria me esconder do amor? Então eu falava sobre o que eu não queria dizer, só para me esconder do amor? Eu queria e não queria falar sobre amor? Amor é sentimento? Amor quer ser dito, amor tem querer? Ou amor só é, e pronto? Tão complicado de simples. Tão vazio de cheio. Eu não preciso escrever sobre o amor? Mas agora já não estou falando sobre o meu amor, estou falando sobre o conceito de amor. O meu amor é o meu segredo, eu não quero revelá-lo. Mas já revelei. Ou não? Eu já falei que amo um ele. Então está tudo dito. É que não compreendo: parece que ainda quero dizer. Ainda quero dizer. Eu disse: amor. Então disse tudo. Mas não disse nada! Estou me compreendendo com o coração. O coração quente. O coração pulsante. Estou pulsando. O meu coração pulsa e a minha razão tenta escrever-lhe o ritmo. Mas o coração é mil vezes mais rápido. Milhões. O coração tem a velocidade da luz. O amor é da velocidade da luz. O amor é tão veloz, que é parado. Me toma com violência. O amor me é? O amor é ele? O amor não é? Vapor? Nuvem? Indizível? Impossível de falar o amor. Teimosa, eu sou teimosa. Eu amo um ele e sou teimosa. A palavra não está chegando, percebe? O que sinto é de grande nível, tão grande nível que chega a não ter nível. Porque é infinito. Eu vejo a infinitude de olhos fechados. Sou hermética? Não queria ser. Todos os seres humanos são solitários. Todos estão separados. O ego nos separa do mundo, dos outros. Os sentidos nos separam. Sou hermética, estou escrevendo. Escrever faz sentido para mim, mas talvez não para quem leia. Sou hermética, os seres humanos são separados por seus sentidos. Isto que você lê é o meu olhar. Você nunca terá o meu olhar, e pode interpretá-lo de infinitas maneiras. Nunca o seu olhar será igual ao meu, o meu nunca será igual ao do ele que eu amo. Os seres humanos estão, definitivamente, separados por seus sentidos. O amor é uma cola? O amor ocupa dois lugares ao mesmo tempo? O amor é um espaço ocupado por dois corpos, ao mesmo tempo. O amor une os sentidos? O amor é erótico? A pele do ele e a minha pele, juntas. O olhar do ele nos meus olhos castanhos. O sabor da boca do ele na minha língua. A minha respiração e a minha voz falha entrando pelos ouvidos do ele, atingindo algo lá dentro que não sei o que é. O cheiro do ele me enchendo o peito. Nós dois num mesmo espaço: o amor. O amor é erótico? A minha palavra diante do seu olhar. A minha palavra roçando você. A minha palavra entrando em você. Escrever é erotizar a idéia? Escrever é amor? Eu escrevo e não sei quem vai ler. Escrevo para qualquer um? Sou promíscua, então? Cada palavra nua, cada palavra verdadeira, cada palavra que fere a realidade é um gozo. Raras palavras são um gozo. O silêncio é bem mais gozoso. É o silêncio o amor? A falta de audição, a falta de ruídos, é isso o amor? Nenhum pensamento, entrega total? Estou entregue às palavras, mas falo. Quando falo, estou à beira do abismo, mas a palavra é uma corda que me segura: não me deixa cair. Nunca chegarei ao cume da idéia, nunca chegarei ao fundo do mares mais profundos. Queria ter dito tudo isso em apenas uma palavra. Queria ter dito tudo isso sem nenhuma palavra. Tenho tanto para dizer, no entanto, são tão poucas as palavras que existem. Quero inventar palavras para dizer o que nunca poderá ser dito.
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Saturday, June 21, 2008

Eu e minha língua grande

A minha linguagem sempre foi uma procura pela lógica. Mas a minha língua quer aquele que não faz nenhum sentido, aquele que é todo sentido. Minha linguagem serve para mascarar as vontades de minha língua. Por que as minhas forças vivem assim, excluindo-se mutuamente? Não podem viver em paz?
Estou tão cansada de mim mesma, e o cansaço vem de eu achar que me sei. Na verdade, o que sou foge ao meu alcance, e quando eu penso que me sei, me limito demais. O que sei de mim são mistérios que se opõem uns aos outros.
Da parte que me sei, vivo cantando louvores às lógicas que crio para viver.
É fato: me explico demais, inclusive onde não há explicações: invento. Eu sou inventiva e isso está me atrapalhando, porque a minha fertilidade ideológica vai contra ao meu ritmo natural de vida. E eu não consigo escoar como uma vida de cachoeira. Sou setenta porcento água, mas a própria água não tem consciência de si. Ela vai de um lugar a outro dependendo da inclinação do terreno, ela não decide para onde vai: só vai. E não se pergunta se é o caminho certo. Sabe que é, é de sua natureza compreender que todos os lugares onde está, é o lugar certo para estar.
Me deixar ir? Sem pensar. Devo então parar de escrever? O que era uma cura está virando a própria doença, escrever me põe a realizar enganos contra mim.
A minha linguagem poderia ser líqüida, mas é tão sólida e gélida que prende a minha língua. Mesmo quando minha linguagem fantasia-se de fogo, mesmo quando a minha linguagem fala de amor e de coisas que parecem puras, a minha linguagem é feita do que sei e eu também sou o que eu não sei de mim, então sou maior do que a minha linguagem pode dizer. A linguagem me põe pequena, miudinha, me faz falar quando é necessário estar muda, e me faz estacionar quando o que eu mais preciso é mudar. A minha maior doença hoje, é a linguagem.

Posted by ||Nat at 21:22:37 | Permalink | No Comments »

Friday, June 20, 2008

o indizível quer ser dito
olha para os lados
procura por um corpo
[um corpo com uma língua]
e acaba por encontrar
se hospeda no coração do homem
-quer ficar
 
o homem, confuso
não sabe o que quer dizer
na verdade ele não quer nada
-é o indizível intruso
querendo traduzir a não-palavra
 
o homem olha a página em branco
ela ali, branda, suave, lívida
ele franco, arrítmico, inválido
sente o que quer dizer
mas não sabe por onde começar
 
então, quase desistindo
o homem escreve amor,
escreve ódio, riso, deus, pavor
e eis que o indizível brota
suando em calor
 
aliviado, o homem se ri
dos versos malditos
rasga a página
vai embora
e deixa o dito por não dito

Posted by ||Nat at 23:10:26 | Permalink | Comments (1) »

Friday, June 13, 2008


[Conversa secreta entre mim, o ovo, a galinha e  Clarice Lispector]

 

o v o s   v i v o s


eles estão pisando em ovos

caçando galinhas, Clarice

galinhas enclausuradas, Clarice

coitadas, galinhas

que não têm culpa de nada

que protegem o ovo, distraídas


mas que coragem, Clarice

têm as galinhas

elas cumprem o papel de galinha

tão desavisadas e aflitas

-não pelo ovo, pela vida que lhes foi dada, atrapalhadas, novas, atuais


e assim, distraídas

elas deixam o ovo viver, Clarice

sem que eles - os maus galões,
que nelas pensam mandar -

entornem o silêncio do ovo

que está lá, sempre lá

enquanto eles pisam em ovos

ovos indestrutíveis, Clarice
e ternos

Posted by ||Nat at 16:57:53 | Permalink | Comments (3)

Friday, June 6, 2008

O Dito de Dora

Quando se trata de usar a língua, Dora não faz cerimônias. Trata de metê-la em tudo, e adora. Dora adora a língua. Dito adora Dora. Dora adora a língua de Dito, que a encharca de amor. A língua de Dito excita Dora. Dito na boca de Dora é puro silêncio. Dora adora o silêncio. Mas nunca, nunca se cala.  Até quando quer deixar o dito-por-não-dito. Dora ditosa. Dito, adorado Dito. Dora adora tanto o Dito que jamais o prende: deixa o Dito solto: se quiser ir embora, vai. Quem se prende à Dora é o Dito. Esta é a certeza de Dora.

Posted by ||Nat at 22:12:39 | Permalink | Comments (3)