: fala que me ama, fala que me ama! Eu nunca pedi isso pra ninguém: fala que me ama. Estou ficando louca? Por que a loucura, se era para eu estar tão segura? Você me ama, você diz, sempre diz. Mas eu preciso deitar em você agora, sentir as suas mãos nas minhas costas. Me sinto tão menina quando você me segura, suas mãos me protegem do mundo, me protegem de mim. Me dá aqui a sua mão, me segura, me aperta, me protege! Oh, meu pai, o que está acontecendo comigo? Esqueça tudo o que eu escrevi um dia, eu estou aprendendo a falar. Eu nunca soube falar, mas agora estou aprendendo. Essas são as minhas primeiras palavras, minha língua era virgem! Estou aprendendo a falar, tudo o que eu disse até hoje foi uma imitação, a imitação dos maiores, eu imitava e pensava que, imitando, falava. Como um bebê que solta ruídos e acha que estava conversando. Eu falava a palavra amor por imitação, eu falava “eu amo” por imitação, eu queria imitar o mundo. Mas veja bem, agora estou aprendendo a falar. Hoje, olho para você e digo: eu te amo. Se um dia disse isso para alguém, não era mentira, era inocência, era eu bebê que não sabia falar, por isso imitava as palavras dos mais velhos. Quero apagar tudo o que escrevi, quero apagar tudo o que disse até hoje: era tudo imitação, eu tenho vergonha por ter sido tão inocente, tão imitadora. Hoje eu olho para você e digo: eu te amo. Eu poderia jogar fora as palavras, eu nem precisaria falar, mas você existe e é necessário que saiba. Eu quero que saiba que eu te amo. Poderia mostrar com a vida que corre, com os gestos, com as mãos, a boca, com as minhas escolhas. Mas é que eu aprendi a falar, entende? Não estou mais imitando ninguém, quero usar a linguagem. A eterna imperfeita linguagem. Queria uma palavra plena, mas ela não existe. Então digo: te amo. Mal aprendi a falar, já quero jogar a palavra fora, a palavra que tem o objetivo de unificar, mas que só sabe dividir. A palavra incapaz. Eu te amo! Compreende o que eu digo? Porque é impossível não dizer, e quando digo que te amo, não imito a nada, nem a mim. Porque eu não tenho a experiência anterior do amor para imitar, eu nunca tive o amor e sua bagagem, eu achei que tinha, mas não tinha. Era cópia. Tudo é tão novo. Tão meu. Esse amor eu não vi na novela, não parece nem meu pai, nem minha mãe, nem ninguém. É meu, original, eu criei sem saber, e agora ele está aqui, adolescente. Mal-criado na minha frente, me pondo louca. E esse amor, por ser novo, me deixa insegura. Fala que me ama! Será que você já aprendeu a falar? Eu não quero que repita as minhas palavras. Se for preciso, invente uma palavra qualquer, balbucie em sua própria língua inventada o que quer dizer: eu te amo. Juro que vou compreender, assim como compreendo que me ama só de me olhar, só pelo modo com que você sorri. Pelo modo com que acorda, me abraça e me dá inúmeros beijos. Juro que vou compreender. Fala que me ama. Eu preciso ouvir que me ama. Você sempre fala, mas você já aprendeu a falar?