Thursday, April 24, 2008

Deus morreu, eu nasci

Saí da barriga de deus. Rompi o ventre de meu grande pai imposto, o pai que sempre tanto amei e a quem sempre fui temente. O deus, deus pai de cristo, meu irmão. Mas descobri com fúria e raiva e culpa: não, não saí da barriga de deus. Fui apenas adotada. Ninguém me contou. É que cheguei a um ponto tão fatal de minha existência que mordi a maçã. Eu sou a própria serpente. Fui adotada por um mundo pai que não é meu pai. Perdi minhas referências. Chamei por minha mãe, que calada, não pôde responder. A grande mãe, aquela de quem me afastaram desde os tempos mais remotos. Prenderam a minha mãe e nunca me falaram sobre ela, mas cheguei até aqui! Cheguei até aqui, e a quem até aqui chega é impossível não morder a maçã, não ouvir a serpente. Não tornar-se a serpente. Saí da barriga de quem? Sou uma órfã, ou então uma abandonada. Que não pode culpar ninguém, porque não sabe a quem culpar. Ou então viver é achar-se a si mesmo por aí, tomar um corpo, um modo de pensar, e ir trilhando? Viver é isso? É um sem começo? Mas e Cristo, o meu amado irmão? Vejo-o partindo, sinto saudades, nostalgia. Sei que nunca mais o verei com os mesmos olhos. Sou serpente agora. Não! Olho agora para a santa face e vejo um ser inanimado: jesus era um totem quando fui olhar de perto. Não tinha carne! Meu deus! Oh, não, “meu deus”, não! Não posso falar mais “meu deus” como antes costumava falar, pensando que o grande pai fosse vir em meu socorro: não há grande pai. Não sou tola, acredito na força que rege o universo. Mas pode ser uma força um pai? Um pai precisa ter emoções para ser pai? Chega. Não há pai, nunca houve pai. O que houve foi necessário até o ponto em que se tornou desnecessário: um mito. Descobri: estou sozinha no mundo. Agora eu nasci de mim.
Posted by ||Nat at 22:39:23 | Permalink | Comments (9)

No divã

 

Após anos de mal-estar, tomei como um profundo alívio admitir que não sei escrever romances. Sou uma mulher fragmentada, não possuo e nem consigo reunir fatos para uma boa, longa e enredada narrativa. Minha literatura gero assim: de grão em grão. E deste mal-estar vergonhoso me livrei do seguinte modo: vomitando em esparsas linhas alguns fatinhos de dentro e de fora. Oh sim!, este mal-estar de mulher prenha. Sou tão volúvel que arrebatadoramente me apaixono por qualquer idéia que me tome o peito ou a pele: elas me fecundam o ventre cerebral. Nenhuma grande idéia, nenhum amor para toda a vida, nenhuma jura eterna: meros gozos. A minha poesia nasce de rapidinhas de paixão que nem vêm e já se vão. São exatamente as idéias libertinas que fazem a minha língua lamber os beiços, arder de tesão, gozar e esquecer: elas só acontecem e tchau. Elas me usam e eu uso delas, num ato libertino e num acordo tácito de uso&abuso consentido. Mutuamente nos violentamos num ato sexual, e assim exercito e excito minhas impressões. Oh!, eu até este instante sofri tanto por ser assim, tão vulgar e de pernas sempre abertas a qualquer ideiazinha que passeie perto de mim! Veja, não é com orgulho que me exponho assim, desnuda. Não é o horror que quero causar no teu olhar ao me mostrar deste modo, juro que não é narcisismo. É uma confissão vergonhosa para mim, porque é íntima. Mas é que hoje, ah!, hoje, encontrei a minha redenção: nomearam o meu sofrimento: o de tentar tecer um boa história de amor com as idéias que me fecundam, mas ao invés de consumar o romance, no máximo me frustro com uma ejaculação precoce. Ou ainda um coito interrompido. Ou então a minha compulsão sexual pelas palavras e a minha falta de narrativa contínua. E porque nomearam este sofrimento, concluo: deve haver por aí pessoas tão ou mais literalmente promíscuas do que eu, que sofrem do mesmo mal. Dizem que é culpa da imediatez do mundo, da prontidão de tudo. Coisa de internet, globalização e corpos nus expostos nos outdoors. Sabe? Dizem que a gente desaprendeu a contar histórias, a narrar longos textos. E eu sinto dizer: desaprendeu mesmo. Invejo os românticos, aqueles que sabem rasgar linhas e linhas coerentes como em um casamento bem-sucedido. Não estou falando de finais felizes, mas de bom enredo: o que prende os amantes uns aos outros é o que também prende o leitor à leitura, e é o mesmo que faz com que o autor se entregue de corpo e alma àquilo que escreve. Tudo é um grande envolvimento erótico, mas a época em que vivo me forçou e eu consenti em transformar erotismo em pornografia explícita. Hoje não sabemos mais viver histórias de amor, eu não aprendi a fazer amor com a poesia, só a gozar rapidinho e mudar de idéia, como quem hoje fica aqui e fica ali, numa troca contínua de parceiros. É a tal da mobilidade líquida, este é o nome do meu mal, do mal atual da humanidade. Cura não há, mas deve haver tratamento para liquidar esta liquidez. Ou atenuá-la, solidificando um pouco o que eu sou, para que eu possa tatear-me um pouco melhor. E aí, doutor. O que você me diz?

Posted by ||Nat at 14:32:26 | Permalink | Comments (4)

Saturday, April 12, 2008

-Você está, tão… tão, prosaica, hoje.
-Ah, meu bem, o que você esperava de mim em um domingo como esse? Parece ser um dia bom para se morrer.
-Eu já ouvi isso em algum lugar.
-Deve ter ouvido, mesmo, já que não tem o costume de ler… e só falou a palavra prosaica porque aprendeu comigo.
-O que você tanto olha aí na janela?
-Por que, você acha que não tem nada pra ver aqui?
-É que você não tem esse costume.
-Hoje eu tenho.
-E posso saber por quê?
-Ah, pode. Quando você souber, por favor, me conte… mas que pergunta…
-Você tá de tê pê eme?
-Você tá de sacanagem?
-Não, mas bem que eu gostaria… hum? Que tal?
-Ah, não enche meu saco, por que não vai arrumar alguma coisa pra fazer?
-É o que eu tô tentando, sua frígida.
-Meu, me deixa em paz? Caralho, eu só tô querendo ficar quieta, olhando a porra da rua!
-Nossa, você tá muito grossa.

A porta bateu atrás dele, que saiu e ninguém sabe para onde. Ela ficou ali, observando a lua.
Não estava amarga, nem doce. Estava era ali, querendo olhar o céu com as suas estrelas. Estava assustada por estar se assustando com aquele céu.
Nunca havia parado para pensar em como a vida era tão incerta. Mas era só olhar para o céu: a lua, as estrelas eram a única promessa de estabilidade que a vida parecia oferecer.
Estava tão cansada dele, mas o amava tanto. Então, o que podia fazer? Não havia nada a ser feito. Eles eram tão diferentes, como mesmo tinham se conhecido?
Ah, sim, em uma festa. Estavam bêbados, os dois. Eram tão mais parecidos… pelo menos quando bebiam. O que foi mesmo que chamou tanto a atenção nele?
Os olhos? Não, não… a boca? Não, talvez o modo tímido com que ele se portava. O porte, foi isso, o porte!
Era tão bonito… Ele tinha mudado? Ou foi a convivência que modificou a visão que ela tinha sobre e a respeito dele?

“Ah, lua, você não muda nunca… me ensina a viver assim? Todos os dias no céu, riscando a noite com uma luz branca…”

Estava emocionada, agora. Lembrou-se de como ele a tratava com ternura. Dos cafés na cama quando namoravam despretenciosos. Ah, quando foi pedida em casamento!
Como era bom viver daquela maneira… será que tinha se tornado uma mulher? Foi isso? Era antes uma menina, e agora era uma mulher?
Não… não queria ser mulher, então. Pesava muito ser mulher.

“Ah, lua, me dá de volta a minha meninice, aquele tempo em que eu te olhava de dentro do carro e dizia aos meus pais que você me seguia pra onde eu fosse! Quando foi que eu esqueci que você me seguia sempre, que estava sempre comigo?”

Ele entrou de novo em casa, abriu a porta, a olhou. Estava tão exatamente como quando na primeira vez: bêbado e tímido.

“Obrigada, lua!”

E foi viver sua lua de mel.

Posted by ||Nat at 21:42:00 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, April 1, 2008

quem puro nasce
e puro permanece
até o último minuto
é culpado.

a pureza da infância
não pode invadir
a alma adulta
-a pureza tem mil faces,
suas faces têm mil
ânsias.

e face à morte,
pureza só existe
se reconquistada.

falo por mim.
se me mantivesse pura
seria por medo,
não seria por ingenuidade
genuína.

por isso, amo os que erram.
os que berram.
os que têm os nervos à flor da pele.
os que viram a cara e clamam por vingança.
os que fumam, bebem, e têm convulsões por abuso
de entorpecentes.
os que sofrem do coração e ainda assim
saltam de pára-quedas.
os que, feridos, não conseguem pensar em perdão.
os inconseqüentes.
os que levam a vida cegados de extremismo.
os que choram e babam e se atiram a chão.
os que chegam a quase matar por paixão.

estes pensam,
sofrem as conseqüências de seus atos,
encarceram-se em si mesmos,
mergulham nas próprias sombras.

mas só estes possuem
o sagrado da redenção
e podem morrer
na melhor pureza da vida,
a que nem morre nem mata:
a pureza aprendida.

Posted by ||Nat at 04:07:32 | Permalink | Comments (3)