Thursday, March 27, 2008

:
escolho as palavras
como quem anda
a passos pisados
no chão: distraída.

poesia é chão
e o espaço
do passo
é a palavra.

escolho o próximo passo andando.
andando, escolho a próxima palavra.

poesia não é destino,
destino é coisa.
 coisa nunca se dirá:
o que é coisa
é coisa, ué!

o pé,
-impensante pé-
 nunca chegará
a compreender
a coisa indomável:
o destino
o inominável.

eu nunca chegarei
a compreender
as forças do que digo.

como quem caminha
escolho as palavras
lenta e leve.

calma e breve
escolho a palavra
flexionando-as
como flexiono os joelhos.

escolho as palavras
como quem corre
sem pensar sobre o chão que pisa.

sem pensar,
sobre o chão de piso
escolho a palavra
como quem cai e morre
no instante preciso.

no instante preciso
da aloucada e rápida palavra
onde tropeço, onde me sustento
onde desatenta me contento.

ando inconsciente
como escolho a palavra:
macaca-pulseira-mulher
óvulo-caneta-flor
ou como outra palavra qualquer:
 amor.

escolho a palavra
como quem sobe uma escada
e se faço doze versos
enfrento
a escadapoesia
de doze degraus.

invento a palavra
ou ela me inventa?
escolho a palavra
como quem venta:
diante dela
não sou sujeito
-só sujeita.

eu escolho a palavra
ou sou por ela escolhida?

escolha
ou jugo
esse jogo de palavras?

sento, me encolho,
não julgo nada.

me calo
para não me sentir
subjugada
.

Posted by ||Nat at 05:01:16 | Permalink | Comments (2)

músicas também sabem fazer círculos…

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

quem inventou o amo-u-ooor?
explica, por favor.

…na minha cabeça.

Posted by ||Nat at 04:12:53 | Permalink | No Comments »

Monday, March 24, 2008

Livro de Visitas

não sou poeta
mas a poesia tem o costume de me visitar
em dias inesperados ou depesperados

abro as portas, as janelas
contemplo-a,
e com meio sorriso triste
e uma lágrima de alegria
deixo ela entrar

ela senta na poltrona
matrona, cuida de mim

fala palavra bonita e feia
fala em Adélia e me ensina palavra espicaçar
me lembra palavra crepúsculo
e meus olhos brilham pedindo mais
fala em Clarice e me ensina palavra arfando
e meus olhos pulam sobre ela
eu tão pupila, dilato de prazer e medo

tem dia que boto a vassoura atrás da porta
não tô pra poesia, tô prosa, com pressa
boto compressa na dor, a compressa da lógica
ela me dá uma rasteira e se faz durona - quer ficar

tem dia que eu rezo pra ela vir
mas a liberdade que desejo conquistar
ela já possui:
vai e vem quando quer
na hora que bem entende
sem dar satisfação a ninguém

sempre que ela vem
assina no livro que preparei pra ela
o livro de visitas

quando ela vai
nunca sei se volta
mas sempre espero

Posted by ||Nat at 02:53:15 | Permalink | Comments (1) »

paizinho eu amo
com tanta saudades
como se ele estivesse sem carne

mas ainda a tem
enrugada e com os ossos frágeis
depois de tanta vida t(d)ensa

paizinho eu amo
com tanta saudade
que parece que morreu
mas morreu não!

eu já inventei uma morte pra paizinho
quando tinha 15 anos
fiz teatro sozinha na cozinha
fingi que via ele no caixão
me atirei ao chão
falando: volta, paizinho, que te amo
vai embora não!

paizinho me deu uma infância
com cheiro destilado
e chinelo na mão
o primeiro ardia na alma
o segundo, na bunda

paizinho eu vi nesta páscoa
cheinho de amor pra dar
pra ele eu dou a mão
e o orgulho de me ver
aprendendo violão

falou que era preu treinar batida, arpejo
em dedilhado me ensinou duas trocas
sol e ré
uma pestana também, pra eu treinar
na cidade onde moro

ah, paizinho que tanto amo
fica pra ver seus netos?
fica pra me ver cantar
músicas que um dia vou compor?
tenho medo da morte, paizinho
de ficar sem teu amor

Posted by ||Nat at 02:22:19 | Permalink | No Comments »

Saturday, March 22, 2008

me pus de boa moça
cuidei de esconder o pus
da ferida aberta
vesti vestido rodado
e tratei de não pintar unhas de vermelho

expus olhar de compaixão
a crianças e mendigos
imaginei a ficção
e nela fixei minha vida
friccionando sonho e realidade
por um orgasmo santo

o homem acreditou
porque também eu acreditava
nos meus olhos mais cândidos
fiquei alma de boneca de porcelana
e ele gostava de brincar comigo
tirar e pôr roupa
guardar na estante
ficar me olhando
cuidar delicadamente

mas de me sentir inútil, brincada
cansei, e querendo deixar de ser boneca branca
me atirei prateleira abaixo
quebrei imagem digna e o homem teve raiva de mim
porque fiquei feia e em cacos

mas gostei de me sentir quebrada
ser humana sentir mobilidade nos membros
usar saia, batom, tomar comprimido,
beijar boca com gosto de amor velho
e fumar cigarro

voltei a ter olhos negros
e cintura fina para ser segurada
recuperei sensibilidade nas pernas
para poder andar errada
mas para a frente

não sou boa nem má
sou moça

Posted by ||Nat at 01:40:15 | Permalink | Comments (1) »

Friday, March 21, 2008

não sei se com humildade
ou soberba
meus pulsos latejam
e escrevo:
amor não sabe

mer corpo é um guardador
de sonhos
que morrem e respiram água m’orna

quando o vi
não fiz nada
quando ouvi
quis morrer em seu corpo
para viver nele eternamente
mas ele não sabe disto
e até agora eu não sabia:
isto é susto

achei graça hoje
quando concluí
que não gosto de olhos claros
porque nos negros as pupilas
se confundem com tudo o mais:
o explícito não me apetece

escrever poemas é cometer
insultos a deus
e eu o escrevo assim minúsculo
porque ele nada é para mim

eu amo mesmo é a coisa grande
que não nomeio
para não insultar

Posted by ||Nat at 09:05:38 | Permalink | No Comments »

Wednesday, March 19, 2008

por anos amei um homem
que nem desconfiava amar
não sabia o que era o amor
e o negava, temente
explicativa, cheia de palavras
e lógicas para minha defesa

por anos me doí de prepotência
porque ?sabia? escrever. tola.

hoje ainda amo o mesmo homem
e ele não me LÊ
por isso o amo ainda mais
porque essa é a maneira mais natural
de ele não me matar
e ele nunca me mata
nem ata

hoje sei que o amo
e sei que antes
o que eu amava
era o engano

tantas vezes friccionamos
entre delitos escorregadios
nossos póros
e contraímos o gozo
e hoje o que tenho dele
é uma lacuna vazia
dentro de minha vida
inabitável por outro ser
que não ele

ser dele é o meu destino
não há fuga
eu só tenho olhos e corpo
para o corpo dele
moreno, esbelto, exato
mesmo ausente

ele disse que me ama
e eu tento adivinhá-lo
sempre me dei
para adivinhações
para o inCÓGNIto
sempre quis atingi-lo
(ao siLÊncio)
em busca de qualquer resquício
ou sinal de presença

ingênua, jogo a isca
porque ele é peixes
eu, aquário
sonho em servir-lhe de casa
tê-lo em moradia mansa
dentro de minha água seca
quando o que ele mais precisa
por hora
é ser livre para nadar
nas correntezas
de um longo rio

Posted by ||Nat at 04:14:20 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, March 18, 2008

Para os cansados e os que prezam o próprio estilo de vida.

Não defendo nenhum estilo de vida. Nem mesmo o meu. Estilo de vida é mais do que uma simples escolha. É uma soma entre circunstâncias e superações que fazemos pelo caminho. Aquele caminho, que cada um traça à sua maneira, com seu próprio ritmo e fluidez de passos. E esse caminho não se baseia apenas naquilo em que se acredita ou em que não se acredita. Mas naquilo que se passa a acreditar e se deixa de acreditar.

Não posso defender nenhum estilo de vida. Isso é tão pessoal, que o que me cabe como ser humano em processo de aprendizado e formação moral, intelectual, ética e também estética, é tomar uma posição no mínimo neutra em relação às pessoas e ao que elas são, ou ao que a vida fez delas. Sem demagogia, mesmo.

É que se você passa a ouvir aquilo que nunca foi dito a respeito daquela pessoinha que você tanto julga ou critica, talvez comece a pensar duas vezes antes de dizer a palavra dura.

Não que eu não tenha uma opinião a respeito da [falta de boa] política do nosso mundo, ou do nosso país. Ou sobre a Educação, a violência, o preconceito. As relações amorosas. E as de ódio. Ou deus, ou o diabo, ou o paganismo. É que creio na indivi-dualidade, e que o tempo, apesar de parecer global, é individual. E intransferível.

Cada um tem um tempo muito próprio para realizar as experiências que servirão de bagagem para o caminho que tem a trilha. Sejam elas erradas ou certas. Quem pode dizer? O tempo. Que pesa nas costas. Na consciência. Que faz a gente querer correr, ou parar. Ou nem existir. Que não volta, que causa revolta. Que vira e volta e deixa as pessoas mais velhas. Às vezes mais cansadas. Do mundo. De si mesmas. Do trabalho. Do marido, da mulher. Do próprio estilo de vida.

Pode ser depois de um longo tempo. Pode ser depois de pouco tempo. Não importa. Um dia, as pessoas se cansam.Mas se sentir cansado do próprio estilo de vida, apesar de parecer um mal, pode ser sinal de que algo de bom e diferente está para acontecer. Uma transformãção? A realização de um sonho que parecia perdido? Talvez escondido lá no fundo da alma, cheio de pesos e obrigãções que a vida acabou impondo e jogando em cima, e sufocando?

Às vezes, a gente precisa se sentir esgotado. Esgotar-se de si mesmo. Esvaziar-se. Tudo para perceber o quanto desrespeitamos nossos próprios desejos. E pior: nossas necessidades básicas. É preciso que se canse de si mesmo. Do próprio estilo de vida.

Quem não se cansa de si, jamais aprenderá o que não é si, jamais orbitará outra rota senão o próprio umbigo. Nunca é tarde demais para estar cansado de si. De esvaziar. E então se renovar, para se (re)preencher [sem se repreender] de sentido.Mas nunca, nunca ressentido. Estilo de vida não serve para ser defendido. Estilo de vida é para ser jogado fora.

Está cansado? Dê graças [a quem ou a quê eu não sei, mas no mínimo a si mesmo]. Pelo menos você não está mais acomodado.

Posted by ||Nat at 04:35:51 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, March 13, 2008

Parada Cardíaca.

Só pude perceber que ele havia parado muito tempo depois, quando acordei em outro mundo. Um mundo desconhecido. Pessoas desconhecidas. Lugares nunca antes explorados. Nada mais poderia reverter o quadro. Ele já estava pintado, acabado e assinado. Assassinado. O quadro era este, agora: outro mundo. Outras pessoas, outras situações, circunstâncias diferentes. E eu, tentando me encontrar. Onde estava o meu corpo? Onde eu estava? Onde estavam as pessoas que eu tanto amava? Agora não podia mais morrer por amor a ninguém: já estava morta, e nem sabia o motivo. O coração parou. O coração que pulsava freneticamente, parou. O coração dilacerado não suportou.

O que fazer com a alma sem um corpo para se manifestar? O coração parado, o sangue que não corre mais pelas veias. O corpo rijo, parado, frio, sem movimentos para adiante, sem movimentos para trás. Estagnado. Sem emoção. O corpo morto, o coração inútil. A vida dentro da morte, vazia. O caminho errante. As pessoas erradas. As pessoas desconhecidas se fazendo de íntimas. Uma vida morta, de mentira. O coração parado, o corpo inerte.

A pessoa certa. A pessoa certa beijando meu corpo morto. A pessoa certa para meu corpo se ele estivesse vivo, mas ele estava morto. A pessoa que não balançava meu coração, porque parado. A pessoa certa com um corpo vivo que merecia outro corpo tão vivo quanto, mas a pessoa era tão certa que perdoou o corpo morto. Entendeu o corpo morto e partiu. A pessoa certa com o amor pelo corpo morto poderia ter matado seu amor. Talvez até tenha tentado. Talvez até tenha chegado a conseguir.

E a alma do corpo morto foi vagando. Pessoas desconhecidas. Pessoas errantes. Passos em falso. Alma em choque, choque, choque, choque, choque. Tanto choque para o coração voltar a bater. O coração voltando a bater. O coração voltando a bater. As emoções pulsando novamente. O corpo ressucitando.

A pessoa certa. Agora estou viva! A pessoa certa… se eu pude ressucitar e reavivar meu coração, talvez a pessoa certa possa reviver seu amor. Porque hoje estou certa. Mas para que ela reviva esse amor, eu preciso compreender. Compreender que o choque que pode reanimá-lo não depende dele, nem de mim. É um choque repentino, que vem. Vem da vida, vem do inexplicável. O que me confunde, o que me incomoda, é a dúvida: ninguém pode dizer que este choque um dia virá, com toda a certeza. Mas eu preciso acreditar, me manter viva. O coração pulsando.

Um dia o choque vem. Acredito. Ele vem, acredito. Eu acredito que o choque virá. E a gente vai grudar, como dedo na tomada. E vai tomar um rumo. Vivendo. Deixando o coração bater, mesmo que ele faça a gente apanhar. Mas nunca mais o coração parado.

Posted by ||Nat at 03:44:08 | Permalink | Comments (2)

Sunday, March 9, 2008

Amor de Salvação

 

Redima-se agora do seu maior pecado: esperar um amor de salvação é uma grande auto-ilusão, e quem a ela se entrega, crê que pode entregar a própria vida nas mãos de outra pessoa - o ser amado - para ser salvo de si mesmo. É grande a tentação de seguir o caminho do amor de salvação, mas aviso desde já: este caminho traz ainda mais sofrimentos e alonga ainda mais o tempo de sua tão esperada salvação.

Não há salvação que não venha de dentro, não há melhora que não seja interior, não há evolução que não parta do indivíduo. É sempre um caminho muito solitário. Há sim, companheiros que dão as mãos e escolhem seguir juntos, mas como são ricos quando sabem que o que os une é a vontade de estarem juntos, e não a necessidade de serem salvos um pelo outro!

Perdoe-se se não pôde salvar o seu ser amado: não é tarefa sua salvar ninguém. É escolha ajudar a pessoa a encontrar o amor-próprio, o único amor que salva o indivíduo. Mas não é tarefa. Esqueça aquele amor que você achou que um dia seria capaz de salvar você de uma situação psicológica ou física. Porque é sua tarefa salvar-se, não é responsabilidade de mais ninguém. Salve hoje o seu amor-próprio, observando onde ele termina e onde começa o orgulho. Porque amor-próprio não é orgulho.

Dizem os cristãos: ama o próximo como a ti mesmo. Eu, que nem sei mais se sou cristã, pagã, que nem mais sei se creio no nome de deus (invariavelmente creio em uma força, inteligência e amor, mas não sei se isso chama deus), concordo com esta máxima, porque antes de tudo, ela é humana e coerente.

Liberte-se, e aqueles ou aquilo que te prende já não terá mais algemas que possam te prender. Liberdade? Liberdade não é poder escolher entre isso ou aquilo. Ter de escolher ainda é estar preso. Liberdade é poder inventar aquilo que você quer para si.

Liberdade é o caminho para que haja a salvação. Seja lá o que a palavra salvação possa significar.

Posted by ||Nat at 00:55:12 | Permalink | No Comments »