Friday, February 22, 2008

Não corte minhas asas. Elas ainda nem nasceram para que eu pudesse voar.

Quando passaram por mim e me viram solta no ar, imaginaram que era um vôo de liberdade. Mas não observaram com atenção ou cuidado. Eu havia me atirado em um abismo para que eu mesma caísse por terra. Aquilo não era liberdade, meu amor, era desespero. Com o corpo totalmente segregado, cheguei ao chão duro, tão concreto quanto a realidade. Ele não me matou, só me fez sofrer até que eu pudesse religar meus membros quebrados. Agora que subi novamente a montanha, meu amor, não corte as minhas asas: há tempos venho me metaforseando para consegui-las e ainda nem as tenho! Caí por ingenuidade ou inexperiência, mas soube recolher e juntar meus cacos, enfrentei tempestades e muita fome para subir novamente. Não, meu amor, não corte as minhas asas! Você, que parece jamais ter se atirado na busca pela liberdade e nunca viu no chão o próprio coração pulsando para um lado, e cérebro atordoado do para o outro. Antes, suba a montanha que escolheu para si e descobre teu caminho, mas não corte as asas que ainda nem possuo! Não meu amor, não inveje minha peregrinação rumo à liberdade: a inveja e o ciúme fazem com que você venha a mim com tesouras que só de eu olhar já me dói.

Não corte as minhas asas que ainda nem nasceram! Me deixe agora, desenvolvendo as asas que tanto quero. E se assim for para ser, um dia ainda nos encontramos por aí, quando ambos tivermos asas. Talvez em alguma nuvem.

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Friday, February 8, 2008

Eu e minha língua grande.

A minha linguagem sempre foi uma procura pela lógica. Mas a minha língua quer aquele que não faz nenhum sentido, aquele que é todo sentido. Minha linguagem serve para mascarar as vontades de minha língua. Por que as minhas forças vivem assim, excluindo-se mutuamente? Não podem viver em paz?
Estou tão cansada de mim mesma, e o cansaço vem de eu achar que me sei. Na verdade, o que sou foge ao meu alcance, e quando eu penso que me sei, me limito demais. O que sei de mim são mistérios que se opõem uns aos outros.
Da parte que me sei, vivo cantando louvores às lógicas que crio para viver.
É fato: me explico demais, inclusive onde não há explicações: invento. Eu sou inventiva e isso está me atrapalhando, porque a minha fertilidade ideológica vai contra ao meu ritmo natural de vida. E eu não consigo escoar como uma vida de cachoeira. Sou setenta porcento água, mas a própria água não tem consciência de si. Ela vai de um lugar a outro dependendo da inclinação do terreno, ela não decide para onde vai: só vai. E não se pergunta se é o caminho certo. Sabe que é, é de sua natureza compreender que todos os lugares onde está, é o lugar certo para estar.
Me deixar ir? Sem pensar. Devo então parar de escrever? O que era uma cura está virando a própria doença, escrever me põe a realizar enganos contra mim.
A minha linguagem poderia ser líqüida, mas é tão sólida e gélida que prende a minha língua. Mesmo quando minha linguagem fantasia-se de fogo, mesmo quando a minha linguagem fala de amor e de coisas que parecem puras, a minha linguagem é feita do que sei e eu também sou o que eu não sei de mim, então sou maior do que a minha linguagem pode dizer. A linguagem me põe pequena, miudinha, me faz falar quando é necessário estar muda, e me faz estacionar quando o que eu mais preciso é mudar. A minha maior doença hoje, é a linguagem.
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