Não corte minhas asas. Elas ainda nem nasceram para que eu pudesse voar.
Quando passaram por mim e me viram solta no ar, imaginaram que era um vôo de liberdade. Mas não observaram com atenção ou cuidado. Eu havia me atirado em um abismo para que eu mesma caísse por terra. Aquilo não era liberdade, meu amor, era desespero. Com o corpo totalmente segregado, cheguei ao chão duro, tão concreto quanto a realidade. Ele não me matou, só me fez sofrer até que eu pudesse religar meus membros quebrados. Agora que subi novamente a montanha, meu amor, não corte as minhas asas: há tempos venho me metaforseando para consegui-las e ainda nem as tenho! Caí por ingenuidade ou inexperiência, mas soube recolher e juntar meus cacos, enfrentei tempestades e muita fome para subir novamente. Não, meu amor, não corte as minhas asas! Você, que parece jamais ter se atirado na busca pela liberdade e nunca viu no chão o próprio coração pulsando para um lado, e cérebro atordoado do para o outro. Antes, suba a montanha que escolheu para si e descobre teu caminho, mas não corte as asas que ainda nem possuo! Não meu amor, não inveje minha peregrinação rumo à liberdade: a inveja e o ciúme fazem com que você venha a mim com tesouras que só de eu olhar já me dói.
Não corte as minhas asas que ainda nem nasceram! Me deixe agora, desenvolvendo as asas que tanto quero. E se assim for para ser, um dia ainda nos encontramos por aí, quando ambos tivermos asas. Talvez em alguma nuvem.