Transbordei
amor tecendo
o amor
que eu criei
transbordei
amanhecendo
o amor
que inventei
transbordei
entardecendo
o tecido
em que amei
eu te amei
anoitecido
o amor
que transbordei
Transbordei
amor tecendo
o amor
que eu criei
transbordei
amanhecendo
o amor
que inventei
transbordei
entardecendo
o tecido
em que amei
eu te amei
anoitecido
o amor
que transbordei
eu quero um girassol amarelo, bonito e grande pra voltar pra jundiaí de ônibus com ele na mão.
quero um girassol, eu vou comprar um girassol.
nunca gostei de flôres - ah, deu uma vontade de nascer na época que só existiam flôres!
mas destas flores de hoje eu não gosto, lembro de enterro e de soluço de choro de gente que perdeu alguém.
eu quero um girassol amarelo e amo o meu amor.
é verdade, eu aprendi a conhecer o meu amor.
o amor de dentro e o de fora.
é mais difícil conhecer o de dentro que o de fora.
mas é impossível conhecer o de fora sem conhecer o de dentro. será que amanhã vou entender quando ler tudo de novo?
tudo bem, eu vou aceitar. mas será que amanhã, ontem eu serei mais inteligente ou sensível?
vai saber. o tempo não é nada linear.
eu quero um sol que gira na minha mão.
vou cuidar dele.
vou casar com ele.
vou dar filhos sadios, engraçados, amáveis e cada dia menos egoístas a ele.
eu descobri o amor feinho, adélia!
sou boba babona bucólica
bitolada bicha bundona
bucetuda de banda
bordô.
sou caco de vidro
coco gelado
cocô fedido
crase mal empregada
cri-cri do grilo na cabeça do cara
mal-encarado.
sou dado sou dada
dadaísta
moça que dá
gosta de dar
soldada da dura busca.
sou bosta. gosta?
sou brega. ego?
sou mijo. foge?
sou anjo. manja?
Esperava passar o ônibus laranja para atravessar a Avenida Politécnica. O relógio marcava exatamente 23h37. Por um impulso, não quis esperar o ônibus passar totalmente para que atravessasse, uma sensação de perigo e ânsia a tomava. Via o coletivo vazio passar monstruoso perto de seu corpo pequeno e duro. Sentia a morte perto, mas muito incerta, claro! incerta demais, jamais morreria, nunca se permitiria morrer atropelada por um coletivo, nunca morreria de propósito, oras, era uma suicida por acaso?
Não, não era. Continuou, subiu as escadas, entrou no condomínio. Aquele não era o seu lugar. Olhou, tantas árvores. Que escuro, estava. Com a chave na mão, caminhou até a porta. Abriu, fechou-a atrás de si. Pé, pé, pé, pé, subindo as escadas até o quarto andar, pé. Ah, que alegria, estaria sozinha em casa hoje! Pé, pé, pé, pé, subindo as escadas até o quarto andar. O que faria hoje para o jantar? Salada, por causa do regime. Pé, pé, pé, pé, diante da porta ouviu barulho dentro do apartamento. Não, não era hoje que desfrutaria o seu apartamentozinho. Mesmo porque o apartamentozinho nada tinha de seu. Era a colega com quem dividia que estava lá, prostrada, de calcinha branca enfiada na bunda e camiseta, sentada diante do ícone de tecnologia, com suas conversas virtuais de modelo e moça -daquelas ingênuas que se iludem por conhecer gente da alta sociedade. Típico comer sardinha e arrotar bacalhau. Oh, coitadas dessas personalidades que ainda não são personalidades! Ela ia dizer algo, mas esqueceu. Esqueceu e se lembrou, mas não sabia com que parte do corpo ou da alma lembrava – não podia reproduzir lingüisticamente a lembrança, como isso era possível? Nem mesmo o pensamento silencioso era capaz de formalizar a lembrança. Resolveu mentir para si mesma que esquecia de vez.
A colega foi tomar banho. Tinha celulites, era muito atraente. Andava com pose arrebitada, oras, sabia que estava sob o olhar de uma mulher, só não sabia que o olhar era daqueles que se olha e se deseja. Mas só o externo.
Calcinha branca na bunda. Começou a se desnudar – vou tomar banho!
Mas não sabia o perigo que corria? Ah, não, perigo nenhum, não o perigo dos atos, mas dos fatos escondidos. Eram duas mulheres sozinhas no apartamento. Uma muito maliciosa e quieta, outra inocente e cheia de prosa de mulher sabida.
-Amanhã preciso me depilar.
Ai que quentura sentia, ai que quentura! Sentia quentura dentro do ventre, ai que quentura!
E foram ambas dormir. Na mesma cama. O resto não se sabe, porque ainda não aconteceu.