Dinheiro
Foi hoje de manhã. Guardava em meu colo um livro que falava de coisas preciosas da vida, que me traziam ternura. Segurava em minha alma algo de pobreza confortável Como era bom não ter muitas posses! E dentro do ônibus, seguia com esse pensamento. Um pensamento de que todos ali estávamos no mesmo ônibus. Seguindo cada uma para uma direção específica, mas o ônibus. Ah, o ônibus! Êramos ali todos iguais. Partilhávamos da mesma estadia momentânea. E pela Nove de Julho seguia o ônibus. Algumas mulheres falavam sobre as falsidades e as virtudes de relacionamentos humanos no trabalho. Eu, no meio delas, tentava me concentrar na leitura. Não pude hesitar, e fechei o livro, sabendo que seria ilícito fingir que lia sem conseguir ler. Sim, eu estava aprendendo a ser sincera comigo, e constatar a minha fraqueza de concentração. Então um senhor muito simpático atravessou o corredor do coletivo, colocando com um sorriso em sua face, dois pacotes de bala na minha mão. Aceitei, e comecei a procurar o dinheito dentro da bolsa enquanto o senhor voltava-se aos outros cliente-passageiros para recolher as balas ou o dinheiro daqueles que comprariam. Uma senhora, que havia recusado o pacotinho, ao ver que eu copraria as balas, sentiu-se compelida a comprar também. Quando peguei uma nota de dois reais, meu dinheiro voou para o lado dela, que me devolveu prontamente, e comentou: - Nossa menina. Ontem, cê num sabe. Eu tava na rua e abri a bolsa e cê num sabe, tinha cinqüenta trocado, sabe? Uma de vinte e trêis de deiz. Daí o vento bateu e, cê sabe, eu sô diarista, tinha cabado de ganhar o dinhêro, é que eu cobro setenta, mas a senhorinha, sabe? Tenho dó, num consigo sê gananciosa, e ela precisa. O dinhêro vuô tudo pela rua, a de vinte entrô numa garage dum prédio da rua queu moro. - Mas a senhora conseguiu pegar o dinheiro? - Ah, consegui. - Não pode, né, dinhêro suadinho… - Pois é menina ! Então veio o senhor, para recolher o dinheiro. - Quanto é? - Cinqüenta centavos cada pacote. - Vou ficar com os dois. E a senhora, que não tinha ouvido o preço, perguntou: -Quanto é? -Ah, pra moça aí do lado, eu tinha que fazer mais caro! - disse o senhor, referindo-se a mim. Todos rimos, e eu fiquei esperando o motivo. - Não vai perguntar por quê, moça? Indagou. - É, por que você quer fazer mais caro pra mim? - Porque vocé tem aparência de menina rica! Todos riram, e eu fiquei ali, sem graça, apesar de acompanhar os risos e dizer “ magina, que isso, eu ando de ônibus!” É essa a impressão que eu passo? É essa a impressão que quero passar? Seria a minha pose? A minha roupa? A minha postura? Eu, que estava me sentindo tão integrada ao mundo, tão dentro daquele ônibus, tão simples ao conversar com aquela senhora, me vi no espelho dos olhos daquele senhor. Fiquei infeliz com a imagem que o mundo tem de mim. Mas muito mais infeliz, porque não é a imagem que quero ter.

