Enquanto eu não aceitar a barata, o rato, o cheiro do esgoto.
Enquanto eu não aceitar as opniões alheias, outros gostos.
Enquanto eu não aceitar o bafo, a cachaça, o bêbado e o cigarro.
Enquanto eu tiver nojo do catarro.
Enquanto uma só pessoa ainda me for motivo de sarro.
Enquanto eu precisar comprar roupas para me sentir aceita.
Enquanto eu não souber respeitar até a ceita mais absurda.
Enquanto eu não puder conversar com uma pessoa surda.
Enquanto o mijo, a merda e o pus me causarem asco.
Enquanto eu ainda for o carrasco e a algema de qualquer ilusão.
Não poderei saber o que é deus.
Quinta-feira, 29 de Novembro de 2007
Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007
Meu corpo diz:
-sou pequeno demais para mim.
Minha alma diz:
-sou grande de mais para mim.
O que é que em mim é exato?
-sou pequeno demais para mim.
Minha alma diz:
-sou grande de mais para mim.
O que é que em mim é exato?
Sobre Chorar
Acho bonito o choro desesperado. Antigamente eu chorava mais, tanto que agora estou seca.
Acho o choro uma coisinha ingênua e, muitas vezes, eu queria viver novamente a ingenuidade de cair em prantos no ombro de alguém.
Só chora quem tem coragem de ser fraco, que não conhece tão de perto o endurecimento. Trago um coração endurecido, por isso, fica difícil chorar.
Sentir aquela miudeza apertando o peito e o corpo diminuindo até o tamanho de um cisco, que diante da imponência dos ventos não possui nenhuma defesa.
Será que ser inatingível é uma mentira que inventei para a minha proteção?
Hoje, mais cedo, pensei em minha mãe, e no quanto ela me magoava com suas palavras e gestos de censura.
Quando dei por mim, tive raiva do olhar do outro! O olhar do outro era a minha doença, e eu queria tratamento de choque. A única maneira de não sofrer era me manter imune, e para me manter imune, era preciso que o olhar “do outro” – de “todos os outros” – virasse para mim motivo de riso.
Se chorar, para mim, era como pedir misericórdia, e no fundo implorar para ser amada apesar de todas as minhas faltas, como o faria agora, se qualquer “outro” que eu encontrasse era para mim motivo de riso? Eu não queria ser amada nem perdoada por palhaços. Muito menos que eles tivessem compaixão de mim.
Será que isso não passa de uma nostalgia boba? Uma saudade do olhar saudável do olhar“do outro”?
Será que o olhar “do outro” é algo tão fatal, ao qual estamos sujeitos à submissão ou subversão por toda a vida?
Acho o choro uma coisinha ingênua e, muitas vezes, eu queria viver novamente a ingenuidade de cair em prantos no ombro de alguém.
Só chora quem tem coragem de ser fraco, que não conhece tão de perto o endurecimento. Trago um coração endurecido, por isso, fica difícil chorar.
Sentir aquela miudeza apertando o peito e o corpo diminuindo até o tamanho de um cisco, que diante da imponência dos ventos não possui nenhuma defesa.
Talvez seja porque falta poesia ao meu olhar. Mas acontece que muitas vezes, quando “o outro” chora por uma dor que noto em mim, ou pela qual já tenha passado em algum momento da minha vida, consigo chorar junto, e é um alívio e um dilúvio. Sofro a dor “do outro” e “no outro” encontro forças para liquefazer minha dor.
Será por vergonha? Pois é tão contraditório, se assim for! Porque eu amo a leveza de ser quase inatingível. Só que eu não sei se realmente sou quase inatingível [o que é leve] ou se sou aparentemente inatingível [o que é pesado]. Porque parecer ao invés de ser é padecer.
Será que ser inatingível é uma mentira que inventei para a minha proteção?
Hoje, mais cedo, pensei em minha mãe, e no quanto ela me magoava com suas palavras e gestos de censura.
Nunca gostei de sofrer, apesar de sentir um certo prazer em olhar a minha face suplicante e vermelha, meu nariz escorrendo e meus olhos inchados e lacrimejantes refletidos no espelho. Eu pedia misericórdia. Mas por que pedia a mim mesma? Depois, troquei o espelho pelo primeiro namorado. Quando o romance acabou, tive raiva do olhar ”do outro”. Agora sei que não era a mim mesma que eu pedia miséricórdia. Mas era o olhar do outro que eu perseguia.
Meu reflexo no espelho não era eu, e sim o olhar de minha mãe cheia de compaixão, uma mãe boazinha inventada, aquela ideal, que eu tanto buscava. Uma fantasia para que eu pudesse continuar vivendo.
Quando dei por mim, tive raiva do olhar do outro! O olhar do outro era a minha doença, e eu queria tratamento de choque. A única maneira de não sofrer era me manter imune, e para me manter imune, era preciso que o olhar “do outro” – de “todos os outros” – virasse para mim motivo de riso.
Não excluí esse olhar, pelo contrário: a minha perseguição agora era chocar o olhar “do outro”. O choque permitia que o espanto deles fosse a minha piada. A partir daí, chorar ficou mais difícil, porque passei a ridicularizar cada gesto explícito ou oculto do olhar do outro sobre mim.
Se chorar, para mim, era como pedir misericórdia, e no fundo implorar para ser amada apesar de todas as minhas faltas, como o faria agora, se qualquer “outro” que eu encontrasse era para mim motivo de riso? Eu não queria ser amada nem perdoada por palhaços. Muito menos que eles tivessem compaixão de mim.
Então, onde estará minha catarse? Em alguma verdade se esconde, sim! Mas qual? E quem ou o quê me trará a catarse de que necessito? A epifania pela qual espero?
Eu não sei se o choro desesperado é apenas uma fase pela qual as pessoas que ainda não amadureceram passam. E também não é que eu controlo o choro, pelo contrário: quero chorar! Mas é que eu não consigo!
Será por medo de sentir pena de mim? Mas eu sei que sentir pena de mim, na verdade, é suplicar pelo amor “do outro”, mesmo quando “o outro” é o meu reflexo no espelho.
Será que isso não passa de uma nostalgia boba? Uma saudade do olhar saudável do olhar“do outro”?
Será que o olhar “do outro” é algo tão fatal, ao qual estamos sujeitos à submissão ou subversão por toda a vida?
Terça-feira, 13 de Novembro de 2007
De uma só vez
É necessário que eu me perdoe. Não me perdoar é como viver como se nunca tivesse errado, anestesiada e perfeita. E nunca ter errado é ter vivido jamais. Se dar conta de um erro e não se perdoar por ele é erro duplicado.
Há de se esperar antes um tempo, pois todo perdão instantâneo é mentiroso. Carregar uma culpa e morrer com ela é se imaginar menor do que se é. E imaginar-se menor do que se é, é ter pena e desprezo por si: um dos maiores erros do ser humano. Quem vive pela culpa nunca se desvencilha do erro. Comete-o em pensamento mil vezes por dia. Quem se perdoa renasce. Mas como aprender o autoperdão?
É necessário que eu me perdoe. Não me perdoar é contar uma mentira para a onisciência e esperar que ela acredite. Não me perdoar é a maior prova de desacato que posso oferecer à vida.
Talvez só mesmo tateando a vida com os dedos. Esses dedos que ainda aprendem certas sensibilidades através de interpretações passíveis de erro - a tão [des]conhecida intuição. Através desses dedos metaforeio a culpa e encontro a ponte que me liga a ela. Assim, mais de perto, posso tratá-la sem tantos medos. Assim, mais de perto, a culpa é contra a lei da física. De longe ela é maior e mais feia. De perto, menor e mais fraca. Assim, chegando perto dela, sei que quando me afastar, ela já não estará mais ali.
Mas, uma vez feita a ponte - a metáfora - como interpretar as sensações de tato quando os dedos estão insensíveis? Assim é a maneira com que aprendo a intuição. Com medo de tatear a vida com os dedos insensíveis, me achando imune à dor. E depois de queimar a ponta dos dedos e puder ver as bolhas, vir à tona toda a ardência, toda a corrosão, toda a dor da ferida. De uma só vez.
Há de se esperar antes um tempo, pois todo perdão instantâneo é mentiroso. Carregar uma culpa e morrer com ela é se imaginar menor do que se é. E imaginar-se menor do que se é, é ter pena e desprezo por si: um dos maiores erros do ser humano. Quem vive pela culpa nunca se desvencilha do erro. Comete-o em pensamento mil vezes por dia. Quem se perdoa renasce. Mas como aprender o autoperdão?
É necessário que eu me perdoe. Não me perdoar é contar uma mentira para a onisciência e esperar que ela acredite. Não me perdoar é a maior prova de desacato que posso oferecer à vida.
Talvez só mesmo tateando a vida com os dedos. Esses dedos que ainda aprendem certas sensibilidades através de interpretações passíveis de erro - a tão [des]conhecida intuição. Através desses dedos metaforeio a culpa e encontro a ponte que me liga a ela. Assim, mais de perto, posso tratá-la sem tantos medos. Assim, mais de perto, a culpa é contra a lei da física. De longe ela é maior e mais feia. De perto, menor e mais fraca. Assim, chegando perto dela, sei que quando me afastar, ela já não estará mais ali.
Mas, uma vez feita a ponte - a metáfora - como interpretar as sensações de tato quando os dedos estão insensíveis? Assim é a maneira com que aprendo a intuição. Com medo de tatear a vida com os dedos insensíveis, me achando imune à dor. E depois de queimar a ponta dos dedos e puder ver as bolhas, vir à tona toda a ardência, toda a corrosão, toda a dor da ferida. De uma só vez.

