Acho bonito o choro desesperado. Antigamente eu chorava mais, tanto que agora estou seca.
Acho o choro uma coisinha ingênua e, muitas vezes, eu queria viver novamente a ingenuidade de cair em prantos no ombro de alguém.
Só chora quem tem coragem de ser fraco, que não conhece tão de perto o endurecimento. Trago um coração endurecido, por isso, fica difícil chorar.
Sentir aquela miudeza apertando o peito e o corpo diminuindo até o tamanho de um cisco, que diante da imponência dos ventos não possui nenhuma defesa.
Talvez seja porque falta poesia ao meu olhar. Mas acontece que muitas vezes, quando “o outro” chora por uma dor que noto em mim, ou pela qual já tenha passado em algum momento da minha vida, consigo chorar junto, e é um alívio e um dilúvio. Sofro a dor “do outro” e “no outro” encontro forças para liquefazer minha dor.
Será por vergonha? Pois é tão contraditório, se assim for! Porque eu amo a leveza de ser quase inatingível. Só que eu não sei se realmente sou quase inatingível [o que é leve] ou se sou aparentemente inatingível [o que é pesado]. Porque parecer ao invés de ser é padecer.
Será que ser inatingível é uma mentira que inventei para a minha proteção?
Hoje, mais cedo, pensei em minha mãe, e no quanto ela me magoava com suas palavras e gestos de censura.
Nunca gostei de sofrer, apesar de sentir um certo prazer em olhar a minha face suplicante e vermelha, meu nariz escorrendo e meus olhos inchados e lacrimejantes refletidos no espelho. Eu pedia misericórdia. Mas por que pedia a mim mesma? Depois, troquei o espelho pelo primeiro namorado. Quando o romance acabou, tive raiva do olhar ”do outro”. Agora sei que não era a mim mesma que eu pedia miséricórdia. Mas era o olhar do outro que eu perseguia.
Meu reflexo no espelho não era eu, e sim o olhar de minha mãe cheia de compaixão, uma mãe boazinha inventada, aquela ideal, que eu tanto buscava. Uma fantasia para que eu pudesse continuar vivendo.
Quando dei por mim, tive raiva do olhar do outro! O olhar do outro era a minha doença, e eu queria tratamento de choque. A única maneira de não sofrer era me manter imune, e para me manter imune, era preciso que o olhar “do outro” – de “todos os outros” – virasse para mim motivo de riso.
Não excluí esse olhar, pelo contrário: a minha perseguição agora era chocar o olhar “do outro”. O choque permitia que o espanto deles fosse a minha piada. A partir daí, chorar ficou mais difícil, porque passei a ridicularizar cada gesto explícito ou oculto do olhar do outro sobre mim.
Se chorar, para mim, era como pedir misericórdia, e no fundo implorar para ser amada apesar de todas as minhas faltas, como o faria agora, se qualquer “outro” que eu encontrasse era para mim motivo de riso? Eu não queria ser amada nem perdoada por palhaços. Muito menos que eles tivessem compaixão de mim.
Então, onde estará minha catarse? Em alguma verdade se esconde, sim! Mas qual? E quem ou o quê me trará a catarse de que necessito? A epifania pela qual espero?
Eu não sei se o choro desesperado é apenas uma fase pela qual as pessoas que ainda não amadureceram passam. E também não é que eu controlo o choro, pelo contrário: quero chorar! Mas é que eu não consigo!
Será por medo de sentir pena de mim? Mas eu sei que sentir pena de mim, na verdade, é suplicar pelo amor “do outro”, mesmo quando “o outro” é o meu reflexo no espelho.
Será que isso não passa de uma nostalgia boba? Uma saudade do olhar saudável do olhar“do outro”?
Será que o olhar “do outro” é algo tão fatal, ao qual estamos sujeitos à submissão ou subversão por toda a vida?