Thursday, November 29, 2007

Enquanto eu não aceitar a barata, o rato, o cheiro do esgoto.
Enquanto eu não aceitar as opniões alheias, outros gostos.
Enquanto eu não aceitar o bafo, a cachaça, o bêbado e o cigarro.
Enquanto eu tiver nojo do catarro.
Enquanto uma só pessoa ainda me for motivo de sarro.
Enquanto eu precisar comprar roupas para me sentir aceita.
Enquanto eu não souber respeitar até a ceita mais absurda.
Enquanto eu não puder conversar com uma pessoa surda.
Enquanto o mijo, a merda e o pus me causarem asco.
Enquanto eu ainda for o carrasco e a algema de qualquer ilusão.

Não poderei saber o que é deus.

Posted by ||Nat at 03:13:04 | Permalink | Comments (1) »

Meu corpo diz:
-sou pequeno demais para mim.

Minha alma diz:
-sou grande de mais para mim.

O que é que em mim é exato?

Posted by ||Nat at 02:54:54 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, November 28, 2007

Sobre Chorar

Acho bonito o choro desesperado. Antigamente eu chorava mais, tanto que agora estou seca.
Acho o choro uma coisinha ingênua e, muitas vezes, eu queria viver novamente a ingenuidade de cair em prantos no ombro de alguém.


Só chora quem tem coragem de ser fraco, que não conhece tão de perto o endurecimento. Trago um coração endurecido, por isso, fica difícil chorar.
Sentir aquela miudeza apertando o peito e o corpo diminuindo até o tamanho de um cisco, que diante da imponência dos ventos não possui nenhuma defesa.

 

Talvez seja porque falta poesia ao meu olhar. Mas acontece que muitas vezes, quando “o outro” chora por uma dor que noto em mim, ou pela qual já tenha passado em algum momento da minha vida, consigo chorar junto, e é um alívio e um dilúvio. Sofro a dor “do outro” e “no outro” encontro forças para liquefazer minha dor.

 

Será por vergonha? Pois é tão contraditório, se assim for! Porque eu amo a leveza de ser quase inatingível. Só que eu não sei se realmente sou quase inatingível [o que é leve] ou se sou aparentemente inatingível [o que é pesado]. Porque parecer ao invés de ser é padecer.
Será que ser inatingível é uma mentira que inventei para a minha proteção?
Hoje, mais cedo, pensei em minha mãe, e no quanto ela me magoava com suas palavras e gestos de censura.

 

Nunca gostei de sofrer, apesar de sentir um certo prazer em olhar a minha face suplicante e vermelha, meu nariz escorrendo e meus olhos inchados e lacrimejantes refletidos no espelho. Eu pedia misericórdia. Mas por que pedia a mim mesma? Depois, troquei o espelho pelo primeiro namorado. Quando o romance acabou, tive raiva do olhar ”do outro”. Agora sei que não era a mim mesma que eu pedia miséricórdia. Mas era o olhar do outro que eu perseguia.

 

Meu reflexo no espelho não era eu, e sim o olhar de minha mãe cheia de compaixão, uma mãe boazinha inventada, aquela ideal, que eu tanto buscava. Uma fantasia para que eu pudesse continuar vivendo.
Quando dei por mim, tive raiva do olhar do outro! O olhar do outro era a minha doença, e eu queria tratamento de choque. A única maneira de não sofrer era me manter imune, e para me manter imune, era preciso que o olhar “do outro” – de “todos os outros” – virasse para mim motivo de riso.

 

Não excluí esse olhar, pelo contrário: a minha perseguição agora era chocar o olhar “do outro”. O choque permitia que o espanto deles fosse a minha piada. A partir daí, chorar ficou mais difícil, porque passei a ridicularizar cada gesto explícito ou oculto do olhar do outro sobre mim.
Se chorar, para mim, era como pedir misericórdia, e no fundo implorar para ser amada apesar de todas as minhas faltas, como o faria agora, se qualquer “outro” que eu encontrasse era para mim motivo de riso? Eu não queria ser amada nem perdoada por palhaços. Muito menos que eles tivessem compaixão de mim.

 

Então, onde estará minha catarse? Em alguma verdade se esconde, sim! Mas qual? E quem ou o quê me trará a catarse de que necessito? A epifania pela qual espero?

 

Eu não sei se o choro desesperado é apenas uma fase pela qual as pessoas que ainda não amadureceram passam. E também não é que eu controlo o choro, pelo contrário: quero chorar! Mas é que eu não consigo!

 

Será por medo de sentir pena de mim? Mas eu sei que sentir pena de mim, na verdade, é suplicar pelo amor “do outro”, mesmo quando “o outro” é o meu reflexo no espelho.
Será que isso não passa de uma nostalgia boba? Uma saudade do olhar saudável do olhar“do outro”?
Será que o olhar “do outro” é algo tão fatal, ao qual estamos sujeitos à submissão ou subversão por toda a vida?

 

Posted by ||Nat at 23:57:22 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, November 13, 2007

De uma só vez

É necessário que eu me perdoe. Não me perdoar é como viver como se nunca tivesse errado, anestesiada e perfeita. E nunca ter errado é ter vivido jamais. Se dar conta de um erro e não se perdoar por ele é erro duplicado.

Há de se esperar antes um tempo, pois todo perdão instantâneo é mentiroso. Carregar uma culpa e morrer com ela é se imaginar menor do que se é. E imaginar-se menor do que se é, é ter pena e desprezo por si: um dos maiores erros do ser humano. Quem vive pela culpa nunca se desvencilha do erro. Comete-o em pensamento mil vezes por dia. Quem se perdoa renasce. Mas como aprender o autoperdão?

É necessário que eu me perdoe. Não me perdoar é contar uma mentira para a onisciência e esperar que ela acredite. Não me perdoar é a maior prova de desacato que posso oferecer à vida.

Talvez só mesmo tateando a vida com os dedos. Esses dedos que ainda aprendem certas sensibilidades através de interpretações passíveis de erro - a tão [des]conhecida intuição. Através desses dedos metaforeio a culpa e encontro a ponte que me liga a ela. Assim, mais de perto, posso tratá-la sem tantos medos. Assim, mais de perto, a culpa é contra a lei da física. De longe ela é maior e mais feia. De perto, menor e mais fraca. Assim, chegando perto dela, sei que quando me afastar, ela já não estará mais ali.

Mas, uma vez feita a ponte - a metáfora - como interpretar as sensações de tato quando os dedos estão insensíveis? Assim é a maneira com que aprendo a intuição. Com medo de tatear a vida com os dedos insensíveis, me achando imune à dor. E depois de queimar a ponta dos dedos e puder ver as bolhas, vir à tona toda a ardência, toda a corrosão, toda a dor da ferida. De uma só vez.

Posted by ||Nat at 19:13:52 | Permalink | No Comments »

Friday, November 9, 2007

 

quando tua língua de canela

roçou meu rosto

fiquei prostrada

com gosto de escrever na boca salivante

soubesse você de todos os meus segredos

eu cairia e quebraria dentro de mim

fiquei com vontade de fazer fluir de meus dedos a própria vida

reversa ao verso

parece que hoje não preciso de ritmo e nem de palavras que combinem foneticamente

estou assim, prosaica, livre e de ressaca

com vontade de existir e apenas, e não resistir a nada

quando a tua língua de canela roçou o meu rosto

Posted by ||Nat at 18:34:38 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, November 7, 2007

Não pense que valho a pena
quanto mais importante pareço
mais importância careço.
A aparência é só um adereço
da minha alma pequena.

Parecer
ao invés
de ser
é padecer.

Minhas palavras viraram
Bits na tela
Tê-las nas mãos 
não mais.
Enquanto os HITS tocam 
nas rádios
por bagatelas,
[qualquer preço é desmereço]
as palavras que me tocam,  
coitadas
são  tocadas 
a pular 
pela janela.

Posted by ||Nat at 13:44:03 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, November 6, 2007

Escrava da beleza?

Não quero mais ter unhas compridas.
Roí todas, uma por uma.
Quando eu era pequena, uma das minhas maiores vontades era ter unhas grandes como as de minha mãe.
E usar salto alto. Bem alto, e fino.
Cá estou, com todas as unhas curtinhas, roídas.
Eu não rôo as unhas, mas desta vez precisei roer, porque quis roer.
Não sou mulher de parecer maior que eu, inatingível.
Minhas unhas são tão curtas quanto a distância que me separa das outras pessoas.
Cor? Nenhuma. Transparente, com o brilho natural.
Transpareço minha alma curta e imatura através das unhas.
Salto alto eu comprei quando completei dezenove anos.
Imponente em cima dele, logo me vi escrava da beleza. Não quis.
Não mais, nunca mais escravada beleza e da inonência que me fazia enxergar beleza na futilidade adulta.
Posted by ||Nat at 19:31:56 | Permalink | Comments (1) »

agradeço pelo assalto pela flor que nasce no asfalto pelo belo que vejo no meio de algo que de feio não é nada singelo
Posted by ||Nat at 01:40:48 | Permalink | Comments (1) »

Thursday, November 1, 2007

Uma andorinha só não faz verão?

Andando pela calçada do Rio Pequeno, distraída. Menosprezado meu celular barato e praticamente inútil na mão direito [uso bem pouco], me vi quase atropelada por um moço de moto. Ele veio na minha direção, e eu imaginei que ele quisesse entrar na garagem da casa onde eu passava em frente. Não ouvia direito o que ele dizia. Pra mim, pedia desculpas por quase ter me atropelado.
 
Fui simpática, já quase falando “não foi nada, tudo bem”. Mas vi que ele não saía da minha frente e não parava de falar algo que eu não entendia. Olhei, já séria, tentando compreender a situação. Foi então que ele se expressou alto e em bom tom: passa logo esse celular. E tomou da minha mão, com força. Soltei um oprimido “tudo bem”. E ele deu a volta e foi embora com a moto.
 
O sol na cabeça. Comecei a tremer, a querer chorar. Me senti injustiçada. Mas essa sensação não durou mais do que cinco segundos.Fui assaltada. Mas não fui a vítima. Sou omissa e co-autora desta sociedade capitalista.
 
Alguns nascem em berço de ouro. Comem da melhor comida desde pequenos, nem lembram qual foi a primeira vez que viajaram de avião. Outros dormem no papelão. Se vestem com a caridade alheia e andam de pé no chão.
 
Qual é o mais culpado? Aquele que esbanja seu dinheiro em marcas, sem consciência nenhuma, escravizados por uma idéia que  não passa de publicidade? Ou aquele que rouba porque se acha no direito de ter aquilo que a propaganda manda que os mais abonados tenham?
 
Ambos são vítimas. Vítimas do lema “tempo é dinheiro”. Vítimas do consumismo desenfreado. Culpado de verdade, é aquele que sabe o que fazer para mudar, mas é omisso. Culpada sou eu, culpado é quem consegue compreender o que estou dizendo aqui e ainda não tirou a bunda da cadeira para mudar a situação.
 
Dizem por aí que uma andorinha só não faz verão. Mas se cada uma das andorinhas não tivesse a consciência de que o papel de uma -dela mesma - é indispensável para o conjunto, como ficaria? Não haveria união, não haveria verão. Os animais irracionais têm me parecido mais humanos do que nós.
 
Problema de ser humano é que ele tá sempre achando que os outros humanos não precisam dele. Que existe um bando de andorinhas lá, fazendo por ele aquilo que ele tem preguiça de fazer, e que não passa de sua obrigação.
 
É claro que quando um assalto acontece com a gente, levamos para o lado pessoal. Nos achamos injustiçados, sim. Ficamos com raiva, sim. Trememos, sim. Falamos de como está a violência, de como as coisas andam feias. De como o governo do país é um lixo.
Acontece que estou farta dos discursos. Do poder de persuasão sem conteúdo teórico que possa ser aplicado. Da falta de motivação que as pessoas têm para mudar o próprio cenário. Da falta de espírito de equipe do povo, da falta de liderança do governo. Mas estou muito, muito mais farta da minha inatividade.
 
Não sei muito bem por onde começar. Mas alguma coisa eu tenho que fazer para mudar a situação.
 
Nem que seja só mudando a minha atitude: usufruindo de minhas possibilidades com consciência seletiva. Não me fazendo de cega e paralítica para os problemas que cabe a mim colaborar para resolver.
 
Nem que seja só tentando conscientizar as pessoas da minha casa. Da minha rua, do meu convívio.E extraindo também delas boas idéias de melhora.
 
Nem que seja sendo chata e falando coisas para um grupo que ainda esteja anestesiado para acordar para a vida e mudar de postura.
 
Nem que seja só escrevendo  para não-sei-quem ler, tudo aquilo que eu acho. E receber críticas, descaso, risos irônicos ou elogios. Não importa.  
 
Mas hoje, meu amigo, resolvi começar a ser uma andorinha. Sozinha, posso não fazer o verão. Mas se eu chegar a aquecer e despertar um único coração, e receber uma mão que se una à minha para a realização dos ideais de um mundo mais justo, terei cumprindo o meu propósito.
Posted by ||Nat at 13:18:13 | Permalink | Comments (3)