Friday, August 24, 2007

Transbordei

amor tecendo

o amor

que eu criei

 

transbordei

amanhecendo

o amor

que inventei

 

transbordei

entardecendo

o tecido

em que amei

 

eu te amei

anoitecido

o amor

que transbordei

Posted by ||Nat at 06:26:19 | Permalink | No Comments »

eu quero um girassol amarelo, bonito e grande pra voltar pra jundiaí de ônibus com ele na mão.

quero um girassol, eu vou comprar um girassol.

nunca gostei de flôres - ah, deu uma vontade de nascer na época que só existiam flôres!

mas destas flores de hoje eu não gosto, lembro de enterro e de soluço de choro de gente que perdeu alguém.

eu quero um girassol amarelo e amo o meu amor.

é verdade, eu aprendi a conhecer o meu amor.

o amor de dentro e o de fora.

é mais difícil conhecer o de dentro que o de fora.

mas é impossível conhecer o de fora sem conhecer o de dentro. será que amanhã vou entender quando ler tudo de novo?

tudo bem, eu vou aceitar. mas será que amanhã, ontem eu serei mais inteligente ou sensível?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

vai saber. o tempo não é nada linear.

eu quero um sol que gira na minha mão.

vou cuidar dele.

vou casar com ele.

vou dar filhos sadios, engraçados, amáveis e cada dia menos egoístas a ele.

 

 

 

 

eu descobri o amor feinho, adélia!

Posted by ||Nat at 06:20:26 | Permalink | No Comments »

sou boba babona bucólica

bitolada bicha bundona

bucetuda de banda

bordô.

 

sou caco de vidro

coco gelado

cocô fedido

crase mal empregada

cri-cri do grilo na cabeça do cara

mal-encarado.

sou dado sou dada

dadaísta

moça que dá

gosta de dar

soldada da dura busca.

 

sou bosta. gosta?

sou brega. ego?

sou mijo. foge?

sou anjo. manja?

Posted by ||Nat at 06:14:35 | Permalink | No Comments »

mulher quer mulher

Esperava passar o ônibus laranja para atravessar a Avenida Politécnica. O relógio marcava exatamente 23h37. Por um impulso, não quis esperar o ônibus passar totalmente para que atravessasse, uma sensação de perigo e ânsia a tomava. Via o coletivo vazio passar monstruoso perto de seu corpo pequeno e duro. Sentia a morte perto, mas muito incerta, claro! incerta demais, jamais morreria, nunca se permitiria morrer atropelada por um coletivo, nunca morreria de propósito, oras, era uma suicida por acaso?

Não, não era. Continuou, subiu as escadas, entrou no condomínio. Aquele não era o seu lugar. Olhou, tantas árvores. Que escuro, estava. Com a chave na mão, caminhou até a porta. Abriu, fechou-a atrás de si. Pé, pé, pé, pé, subindo as escadas até o quarto andar, pé. Ah, que alegria, estaria sozinha em casa hoje! Pé, pé, pé, pé, subindo as escadas até o quarto andar. O que faria hoje para o jantar? Salada, por causa do regime. Pé, pé, pé, pé, diante da porta ouviu barulho dentro do apartamento. Não, não era hoje que desfrutaria o seu apartamentozinho. Mesmo porque o apartamentozinho nada tinha de seu. Era a colega com quem dividia que estava lá, prostrada, de calcinha branca enfiada na bunda e camiseta, sentada diante do ícone de tecnologia, com suas conversas virtuais de modelo e moça -daquelas ingênuas que se iludem por conhecer gente da alta sociedade. Típico comer sardinha e arrotar bacalhau. Oh, coitadas dessas personalidades que ainda não são personalidades! Ela ia dizer algo, mas esqueceu. Esqueceu e se lembrou, mas não sabia com que parte do corpo ou da alma lembrava – não podia reproduzir lingüisticamente a lembrança, como isso era possível? Nem mesmo o pensamento silencioso era capaz de formalizar a lembrança. Resolveu mentir para si mesma que esquecia de vez.

A colega foi tomar banho. Tinha celulites, era muito atraente. Andava com pose arrebitada, oras, sabia que estava sob o olhar de uma mulher, só não sabia que o olhar era daqueles que se olha e se deseja. Mas só o externo.

Calcinha branca na bunda. Começou a se desnudar – vou tomar banho!

Mas não sabia o perigo que corria? Ah, não, perigo nenhum, não o perigo dos atos, mas dos fatos escondidos. Eram duas mulheres sozinhas no apartamento. Uma muito maliciosa e quieta, outra inocente e cheia de prosa de mulher sabida.

-Amanhã preciso me depilar.

Ai que quentura sentia, ai que quentura! Sentia quentura dentro do ventre, ai que quentura!

E foram ambas dormir. Na mesma cama. O resto não se sabe, porque ainda não aconteceu.

Posted by ||Nat at 06:00:47 | Permalink | Comments (1) »

Wednesday, August 8, 2007

Foi-se.

Ela estava decidida. Todas as vezes em que sua amiga dormia em casa, brincavam de colocar o vidro de perfume dentro de suas respectivas vagininhas. Essa cumplicidade com a amiga vinha de muitos anos, desde a infância, quando ambas resolveram se beijar para saber como era sentir duas línguas roçando moles em bocas coladas. Mas todas as vezes em que a amiga dormia em casa se via perplexa diante da pergunta:

-Já acabou? Eu acabei de acabar. Boa noite, até amanhã.

Como assim acabou? O que era acabar?

Uma vez ouviu barulhos de coisa molhada mexendo na cama de baixo, e perguntou à amiga o que era aquele barulho.

-O quê? Você não fica assim, molhada? Deixa eu ver.

E foi a primeira vez em que foi tocada por alguém que não era ela mesma. Foi tocada e foi gostoso. Foi gostoso e quis mais, mas logo a amiga cortou:

-Viu? É assim que se faz.

Não, ela queria aquela mão ali, por mais tempo. O que era aquela sensação que nem nome sabia dar?

Mas hoje? Ah! Hoje ela estava decidida. O pai e a mãe na cozinha, ela no banheiro. Deitou-se no chão do box, e ansiosa, com a boca mesmo arrancou a ponta do chuveirinho. Pressionou-o com uma das mãos, abriu as pernas e mirou. O jorro tocava o clitóris com força, até incômoda. As pernas tremiam, incômoda. O tempo passava, dez minutos, vinte minutos. Mas estava decidida. Afinal, o que era o final? Ela prendia os lábios, ousava colocar a língua para fora e nesta liberdade que a língua ganhava por alguns segundos, podia sentir o salgado do rosto cansado e aflito. Os pais desconfiavam? Os pais na cozinha, a porta trancada, o jorro jorrando. Ela se olhava, ela se notava, branca e adolescente, ela via a ingenuidade toda em seu corpo e não sabia que aquilo era a santidade indo embora para sempre.

Trinta minutos, trinta e cinco minutos. Pela primeira vez, quase desistiu. O seu corpo estava insuportável de tão novo que era para ela, os dedos dos pés não paravam de entortar para baixo sem nenhum tipo de controle, as coxas tremiam inevitavelmente. Ai meu deus, o que era aquilo, o que estava sentindo, o que era aquele medo que a fazia ousar ainda mais nos minutos? De uma só vez sentiu uma contração desesperada que não foi comandada por ela mesma no meio das pernas. E outra, mais outra, e agora menores e depois insensíveis. Algo estava preso dentro de seu ventre, algo o seu ventre agora a revelava, algo se soltava e algo se prendia. Agora ela tinha consciência do que habitava suas entranhas, não, agora deixava de ser uma estranha para ser mulher, mesmo que ainda muito menina. Depois disso o jorrar doía e ela sossegou. Coração batendo como nunca dentro do peito a despeito da preguiça e da tranqüilidade que inesperadamente a tomava.Foi isso. Ainda perplexa, mas satisfeita, colocou novamente a ponta do chuveirinho na mangueira, desligou a água e secou-se com a toalha do Mickey Mouse.

Posted by ||Nat at 01:15:05 | Permalink | Comments (2)

Tuesday, August 7, 2007

a+a borda

Eu só me sei quando t r a n s b o r d o. Quando assumo a ignorância de mim mesma. Quando o sumo do saber está escondido.

Eu só me sei quando t r a n s t o r n o. Quando me torno uma desconhecida e desço ao chão e sou alguém que nunca vi.

Eu só me sei quando t r a n s f o r m o. Quando tomo a forma jamais preconcebida, quando aterrisso em mim mesma fora de minha vida.

Ele eu não quero aprender. Não sei por qual motivo, e até gostaria de querer. Mas o sorriso que eu mantinha quando eu ainda tentava aprendê-lo não colore mais a minha face. Estou outra, não existe mais conflito em mim, findou.

Nada mais eu tenho a pensar, apesar de tudo. Como lidar com o nada se tenho como costume ser visceral?

Ainda mais agora que estou pronta para ver mais um ciclo em mim morrer. Não gosto de escrever em primeira pessoa, mas hoje me permito.

É quase impossível um ser humano conhecer-se. Conhecer-se por completo seria lembrar-se de tudo, e lembrar-se de tudo seria adivinhar o futuro. Que o que é o futuro senão uma conclusão do passado?

Conhecer-se é avançar no tempo, mas estou ainda densa e presa dentro de mim. Assim sendo, assim, não me conhecendo, concluo que ninguém é totalmente dono de si. Pessoas muito seguras daquilo que são não me transmitem a confiança que só consigo sentir ao perceber a admissão do desconhecimento alheio de si mesmo.

Agora começo a enxergar a independência dos meus movimentos, e não consigo separá-los, porque um gera o outro. Eu, mulher que sonhava, mulher que queria ter filhos e família e que queria viver toda a vida em um segundo e voltar para o hoje, só para ter mais conhecimento e escrever com mais sabedoria, compreendo frustrada que o que me cabe é me contentar com o hoje e vivê-lo dentro e fora de mim, sem homem nenhum. Eu sou menor e maior que eu.

O homem que procuro é maduro demais para mim, eu, que ainda maturo nesta estação chamada vida.

Eu não saberia ainda lidar com o homem que amo e que ainda não conheço, o homem de quem eu sinto falta está muito além de mim e de onde a minha compreensão alcança.

Em que ponto da estrada ambos nos encontrávamos quando o deixei seguir sozinho? O homem que eu amo, eu mesma deixei partir um dia, porque ele já começava a ser maior que eu.

Oh, homem que eu amo, quem é você que não recordo o  rosto ou o gosto, mas sinto a falta? Oh, homem que eu amo, perdoa a ignorância de quem ficou para trás e não te acompanhou e se perdeu no caminho.

Homem, eu te sei mas não te reconheço, onde habita, como é o teu nome? Não te encontro em homem algum porque você mesmo é maior que eu. Por que, homem, não sei te alcançar?

Não estou cansada, estou condenada a viver esta vida e entendo que só vivendo hoje poderei viver amanhã, e só amanhã que um dia será hoje, obterei a resposta em forma de experiência e nem me lembrarei da pergunta, porque até lá talvez já tenha aprendido a deixar de fazer perguntas sem mesmo formulá-las.

Hoje é casta e virgem que eu me sinto. Hoje parece que me basto. Não é mais assim tão vasto o meu objetivo, porque hoje ele não existe. Hoje o amor não insiste em me perturbar, tudo o que eu disse foi muito sem sofrimento nenhum. São poucas as vezes que estou assim. Não, hoje não estou visceral. Eu pensei apenas porque me forcei a pensar, calma e nada dolorida. Não doeu me sentir frustrada hoje, que estou inatingível a mim mesma. Eu estou amortecida. O meu amor teceu a proteção em volta de si mesmo e eu já não o alcanço mais, ele está tão grande e independente que virou uma vida dentro de mim, com a qual não sei lidar. E se eu nunca mais reconhecer o homem que eu amo? Estou condenada ao desencanto?

Mas não, eu não estou sofrendo. Não, eu não estou me reconhecendo, porque minha natureza é de doer, mas hoje a minha superfície tomou o controle da minha profundidade. O meu fundo chega à tona sem sua expressão comum. Ele não se expressa, ele apenas se manifesta.

Hoje me soube um pouco mais.

Posted by ||Nat at 00:11:32 | Permalink | Comments (2)

Friday, August 3, 2007

Eu não sei escrever! 

Pretendo um dia deixar de ser estúpida
Deixar ir essa estupidez
de uma só vez e ter um pouco de paz.
Eu quero ser algo como nítida
não desejar ser feliz
aprender a ser leve e levada.

Compreender o que tanto se diz
e quando não conseguir
ser surda e muda e mudada.

Eu quero dormir tranqüila
e poder manifestar as minhas impressões
em palavras.

Fazer de mim mulher em melhor direção:
mais lápis, mais caneta, mais papel,
fazer de mim um pouco menos ao léu,
estar impressa em olhos anônimos de identificação.

Quero ser menos padronização.
Mais vivida, mais vívida, menos especulação.

Não importa onde:
se necessário
a minha palavra vai chegar.

Porque eu só tenho vinte e um anos
e o que faço com eles, tão poucos
para quem quer saber tanto?

Eu só tenho planos
que parecem loucos,
por que tanto espanto?

Eu escrevo verdades e atos. Mas ainda não sei escrever.

Só vou mesmo saber escrever no último instante em que eu viver.
Porque já terei tudo a dizer.

Posted by ||Nat at 04:24:01 | Permalink | Comments (1) »