Eu olhava para meus braços. Era um problema me achar tão morta? Tão densa e ao mesmo tempo tão vívida? O braço branco e morto, a mão branca e morta, por dentro sendo nutridos pelo meu espírito vivo.
Como podia? Era lícito sentir assim? E estes pensamentos que vinham? Ah, todo pensamento que perturbasse era uma doença que precisava ser curada, mas como? Como sozinha?
Era tanto egoísmo dizer-me sozinha! Havia coisas que meus sentidos mortos não captavam, aqueles sentidos da carne branca morta, mas que nem por isso deixavam de existir.
Todo pensamento que era gerado por um sentimento trazia a sensação da náusea, da vontade de vomitar. Palavras? Vomitar eu mesma de mim?
Inventara um termo? Pois existia a antropofagia, mas e esta bulimia que me tomava sempre? Eram ambos complementares?
Era tão necessário esvaziar-me de mim para ser o outro, e ser o outro é tão platônico quanto qualquer tipo de amor existente na Terra.
O amor ideal ainda inaplicável começava a ganhar corpo em mim e agora os meus atos começavam a contaminar-se com este amor, encontrando brechas nos outros que são outros mundos aparentemente muito herméticos.
Oh, meu deusinho, como estamos longe de ti. Ser um amor de todo aplicável é esquisito para todos neste mundo de teorias. Aplicar o amor é piegas, mas deus, deusinho meu, eu sou piegas e quero te aprender.
As pessoas se olham e nem se vêem. Mal percebem, coitadas. Coitada de mim também que sou pessoa. E pessoas cruzam seus olhares mas estão desligadas. Estão sozinhas com suas imagens internas.
O ser humano é quase todo o tempo intangível. Que coisa, deusinho! São tantas as oportunidades de tocar.
Duas bocas falam e são apenas duas bocas que falam [ -bom dia? - bom dia! -tudo bem? -tudo e você?]. Nada de dentro que se exteorize, tudo gravado, tudo eco. Duas pessoas que falam são duas pessoas separadas.
Até quando? Até quando eu mesma assim?
Deusinho, nunca antes me senti tão viva, tão forte, jamais quero te abandonar. É que é tão doloroso ser humano, deus, e descobrir que se erra, que não se é perfeito, e que neste mundo onde vivo dentro de um corpo que morre todas as verdades são menores que metades.
Este trem não possui separações. É bom me distrair. Apoiar a mão direita no queixo, dar uma pausa para a caneta, observar as pessoas com suas feições.
Um homem de cavanhaque observa as coisas. Mira os olhos em tranquinhos de pouco em pouco, a bola do olho mirando, mirando, para lá e para cá, em movimentos que parecem redondos mas são quase quadrados. Ele usa um óculos, sapatos pretos, calça social e um blazer cinza. Nossos olhos se encontram às vezes, será que ele pensa no que escrevo?
Chegamos na Estação Terminal.