Thursday, April 19, 2007

Dinheiro

Foi hoje de manhã. Guardava em meu colo um livro que falava de coisas preciosas da vida, que me traziam ternura. Segurava em minha alma algo de pobreza confortável Como era bom não ter muitas posses! E dentro do ônibus, seguia com esse pensamento. Um pensamento de que todos ali estávamos no mesmo ônibus. Seguindo cada uma para uma direção específica, mas o ônibus. Ah, o ônibus! Êramos ali todos iguais. Partilhávamos da mesma estadia momentânea. E pela Nove de Julho seguia o ônibus. Algumas mulheres falavam sobre as falsidades e as virtudes de relacionamentos humanos no trabalho. Eu, no meio delas, tentava me concentrar na leitura. Não pude hesitar, e fechei o livro, sabendo que seria ilícito fingir que lia sem conseguir ler. Sim, eu estava aprendendo a ser sincera comigo, e constatar a minha fraqueza de concentração. Então um senhor muito simpático atravessou o corredor do coletivo, colocando com um sorriso em sua face, dois pacotes de bala na minha mão. Aceitei, e comecei a procurar o dinheito dentro da bolsa enquanto o senhor voltava-se aos outros cliente-passageiros para recolher as balas ou o dinheiro daqueles que comprariam. Uma senhora, que havia recusado o pacotinho, ao ver que eu copraria as balas, sentiu-se compelida a comprar também. Quando peguei uma nota de dois reais, meu dinheiro voou para o lado dela, que me devolveu prontamente, e comentou: - Nossa menina. Ontem, cê num sabe. Eu tava na rua e abri a bolsa e cê num sabe, tinha cinqüenta trocado, sabe? Uma de vinte e trêis de deiz. Daí o vento bateu e, cê sabe, eu sô diarista, tinha cabado de ganhar o dinhêro, é que eu cobro setenta, mas a senhorinha, sabe? Tenho dó, num consigo sê gananciosa, e ela precisa. O dinhêro vuô tudo pela rua, a de vinte entrô numa garage dum prédio da rua queu moro. - Mas a senhora conseguiu pegar o dinheiro? - Ah, consegui. - Não pode, né, dinhêro suadinho… - Pois é menina ! Então veio o senhor, para recolher o dinheiro. - Quanto é? - Cinqüenta centavos cada pacote. - Vou ficar com os dois. E a senhora, que não tinha ouvido o preço, perguntou: -Quanto é? -Ah, pra moça aí do lado, eu tinha que fazer mais caro! - disse o senhor, referindo-se a mim. Todos rimos, e eu fiquei esperando o motivo. - Não vai perguntar por quê, moça? Indagou. - É, por que você quer fazer mais caro pra mim? - Porque vocé tem aparência de menina rica! Todos riram, e eu fiquei ali, sem graça, apesar de acompanhar os risos e dizer “ magina, que isso, eu ando de ônibus!” É essa a impressão que eu passo? É essa a impressão que quero passar? Seria a minha pose? A minha roupa? A minha postura? Eu, que estava me sentindo tão integrada ao mundo, tão dentro daquele ônibus, tão simples ao conversar com aquela senhora, me vi no espelho dos olhos daquele senhor. Fiquei infeliz com a imagem que o mundo tem de mim. Mas muito mais infeliz, porque não é a imagem que quero ter.
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Wednesday, April 18, 2007

retrô

olho para todas as pessoas a minha volta no metrô no ônibus nos corredores de alguns lugares que não sei o nome e quero sair correndo eles me esmagam com seus pensamentos eles criam suas angústias eles comemoram suas vitórias rostos tristes rostos pobres olhares direcionados ao infinito perdido dentro de suas mentes cria ativas que me ativam a sensibilidade que me dão medo e paz uma pessoa olha e é saudades uma pessoa olha e é solidão uma pessoa olha e é preocupação uma pessoa olha e é lembrança uma pessoa olha e é raiva uma pessoa olha e é perdão uma pessoa olha e é deus uma pessoa olha e é bondade uma pessoa olha e é esperança uma pessoa olha e o mendigo passa com sua criança no colo uma pessoa é indiferença uma pessoa é piedade uma pessoa é vergonha uma pessoa é vaidade uma pessoa olha e passa o carro preto insulfilmado uma pessoa é adimiração uma pessoa é inveja uma pessoa é indignação uma pessoa olha e uma senhora entregando panfletos uma pessoa é sorriso uma pessoa é passos rápidos uma pessoa é introspecção uma pessoa olha e é cega só zuns só passos só tatos só na escuridão uma pessoa passa e silêncios é surda só expressões só impressões só vermelho verde roxo branco preto passa gente passa gente meditação uma pessoa passa e enlouquece uma pessoa passa e esbarra uma pessoa passa e fala oi uma pessoa pisa no pé e pede desculpas uma pessoa cai uma pessoa sai uma pessoa vai em vão uma pessoa erra o vagão olho para todas as pessoas a minha volta coitadas todas elas perdidas num mundo que quase não passa de ilusão mas todas elas passam pela minha vida hoje sem dar satisfação são lindas são soltas não pensam em mim são presas e estão roucas de emoção mas não não pensam em mim são elas sem elas darem por isso e eu estou aqui agora tentando dizer que elas são foram e serão que engraçado não? elas jamais dirão nada de mim nunca me olharam nunca me viram nunca sequer sabem da minha existIencia mas oh eu as amo amo tanto amo muito os seres humanos são os motivos de tudo de onde vem esse amor eu quero continuar a escrever eu quero parar de escrever já disse o indizível e não disse nada queria ser
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Wednesday, April 11, 2007

Certeza

é certo meu bem / de perto / todo mundo / é ninguém. enxágüe / da lágrima / é que não vem / o milagre.
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Tuesday, April 10, 2007

Sampa

De dentro eu sinto menos medo e um pouco mais de saudade. Me calo num onibus, no centro. Vou olhando as caras da cidade. O primeiro dia já foi sem dor, sem pressa e sem pressão. E se pergunto se minha ação é arbitrária, me calo com a boca de feijão. Mas não sou Chico não, sou bem menos lendária, cem por cento secundária. Talvez eu seja um pensamento blasé do meu patrão. Uma cerveja sem álcool no botequim do João. Eu sou a fé que bate no meu portão. Um rasgo raso, escarlate, em algum coração. [Um olhar vago, de emoção vagueava, vigoroso, violento, dentro do vaguão]
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Monday, April 9, 2007

Eu não tenho mais casa A minha casa são as ruas De São Paulo Com seus lixos E relaxos Com seus bixos E capachos O meu quarto não tem mais o poder De me comportar E meu comportamento Não cabe mais Entre paredes de apartamento Eu já não mais me contento Com tanto pequeno Nas poucas mãos grandes Nem com as grades De nenhumas intenções Nem com a tensão Do tédio Nem com o intermédio E estes pratos limpos E baratos Não me servem de remédio Porque as baratas me abriram os olhos Curaram os caolhos Invisíveis da minha alma Porém, ainda sigo calma Não trago cigarro Só trago amor As dores procuro esquecer Pra aquecer meu futuro de brilho E diminuir contrastes Agora vou agradecida Para os braços do amanhã.
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Wednesday, April 4, 2007

Já fui mais velha

antes de hoje

já fui o que viesse

à tona na telha

já fui mais pentelha.

Já fui mais bruta

antes de viver a rima

no rumo da luta.

Provei minha fruta

na labuta forte e fina .

Já fui mais improviso

mais lágrima, mais pálida, mais calada

e cálida,

menos sorriso.

Eu fui o impreciso.

Já fui puro espanto

me perdi no meio

dos meus próprios cantos

já fui menos encanto.

Hoje não sou nem mais

nem menos eu:

tanto faz.

Apenas sou, e isso

me satisfaz.

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Monday, April 2, 2007

, só que ela tinha um ideal de amor, que quase sempre era quebrado. Como eram duras as tentativas de amar! E ela, sem alternativas outras, nunca desistia, embora o caminho mais fácil fosse o da desistência. Como sua consciência lhe cobraria depois, na metade da vida, quando estivesse com alguém que não condizia com seus ideais de amor?

Estava aprendendo. Como era complexo viver! As pessoas, para ela, antes vistas como possibilidades de vida, agora eram vistas como impossibilidades de divisão. Como incompatiblidades de estados mentais, como nunca fossem tocar-se mutuamente uma no fundo da outra. Por que as pessoas não se tocavam uma no fundo da outra?

Por que existiam partes físicas e mentais proibidas ao toque? Ela se perguntava a todo o tempo quando encontraria alguém completo, que não segregasse parte alguma de seu corpo e de seu espírito. Alguém com quem pudesse com-viver.

Porque ela estava aprendendo que o amor não é nem dar, nem receber.

É um estado de espírito. E ela queria alguém com esse estado de espírito.

 

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Um desatino: Nao ter destino. Uma discrepancia: Conter a ansia. Um desconcerto: Errar no acerto. Uma malcriacao: Peidar no busao. Um pedantismo: Ser cult no ocultismo. Uma idiotice: Beatificar Clarice. Micro malvado: Teclado desconfigurado. Um desocupado: Voce lendo isso aqui. Iiiih. Foi mal, aii!
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Sunday, April 1, 2007

Escrevo pelo dever Pelo direito Pelo avesso Escrevo pelo crer Pelo entreter Pelo adereço Escrevo pelos pelados Peludas Pelancudas Desacudidas Por quem não tem roupa pra vestir Pelas galinhas depenadas Pelas calmas Pelo sentir Pelas almas penadas Escrevo pelo cravo Pela rosa Pela espinha infeccionada Dolorosa Quando tocada Escrevo por amores longes Por amigos perto Pela água Pelo oásis Do meu deserto Escrevo pelo desertor E pelo soldado Pela esperança Pelo desesperado Escrevo pelo futuro que não vem Pelo passado que não foi Pelo presente que foge Pelo gozo Pelo nojo Pelo álcool, comida Pelo engov Pelas mulheres que possuem pelinhos Nos seios Nos meios Nas meias noites mal dormidas. Pelos homens que amam E não possuem sono Pelo calor Pelo abano Pelos abonados Africanos Asiáticos Sul-americanos Pelos concretistas Tropicalistas Modernistas Claricianos Pelos músicos E pelos profanos Escrever Deve ser Meu maior engano.
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