Cansada. Alguém me explica por que eu me sinto tão cansada de todas as coisas de que se possa um dia falar? Por que eu me sinto em exaustão e sem forças para continuar algo que ainda nem sei se comecei? Me sinto cansada de mim. Eu que quero mudar o mundo, posso me apontar no espelho e fazer mil xingamentos desordenados e verdadeiros. Eu hipocrisio o tempo todo, eu aponto, aponto, aponto e o lápis das verdades alheias ficam tão finos e cortantes que acabam por me espetar. Eu falo da merda dos outros e nem sei o cheiro da minha. Quero a feminilidade dos homens, mas nem sei o que é e nem onde começa a masculinidade deles. Por que tenho que ser tão egoísta? É que raras pessoas no mundo falam a minha língua. Mentira. Raras não devem ser, mas meu campo de conhecimento é muito pequeno, então, a errada sou eu por prejulgar o mundo e prejulgar-me entendida. Eu não sei de nada. Natacha, você não sabe de nada. Você sabe muito pouco. E eu digo a mim mesma, como uma mãe brava latindo como um cão perigoso: sente-se e fique no teu canto, teu palpite é inútil, você não sabe fazer isto. Eu sei: eu não sei de nada: nada que me interessaria, não tenho profundezas, profundidades. Menininha teórica de vinte e um anos que age como se fosse uma mãe, mulher casada, profissional bem sucedida, vá para o teu canto. Você não sabe nem como mostrar aos outros o que gosta! Perde a paciência diante do mínimo de desconforto. Se irrita com a menor discordância. Até com o corretor automático de texto do word que diz que não se inicia uma frase com um pronome reflexivo se incomoda, porque sabe que o povo brasileiro nunca usa a ênclise, pelo menos sua maioria. Estou cansada. Só isso. Quero tirar esse peso de minhas costas, esse peso que não sei de onde vem. É um peso que se aloja e me põe sono, me põe na cama, me faz comer chocolates, me faz ficar com algumas espinhas no rosto, me faz desistir. Quero tirar esse peso do corpo e continuar, porque acredito que posso. Só preciso de força. Força interior.