Não te interessa ler tudo isso, não leia. O que eu vou escrever vai lhe parecer chato e maçante, e você não vai entender nada, mas se há algo de sensível dentro de você, sei que permanecerá aí até o último sinal, a última letra, o último ponto. Caso contrário não me é interessante que você continue lendo, mude de página, abra o orkut, a sua caixa de mensagem no e-mail, desligue o micro, mas não se deixe levar pelas minhas palavras que para você serão inúteis.
Fique aí, porém, se houver identificação sensível comigo. E eu nem sei por que comecei o meu ensaio desta maneira defensiva e quase agressiva de dar boas vindas. Talvez até saiba, mas sobre isso não quero escrever agora.
Sinto que a poesia transpassa a minha vida de uma maneira tão expressiva que necessito juntar as letras para formar os sentimentos vermelhos ou violetas, que são do meu jardim da vida.
A rima já não tem pra mim tanto valor, o que me atrai e distrai é a plasticidade que as emoções têm quando colocadas através das palavras escritas. A plasticidade e a elasticidade mole que têm os sentimentos, como café expresso indica um amargo gostoso acompanhado de chantili em algumas manhãs que não são minhas, mas são das pessoas que trabalham e moram sós, e vão à lanchonete dar bom dia ao senhor que fica atrás do balcão, lendo o jornal.
Sou tomada por uma nostalgia que existe em tudo e antes mesmo de eu existir.
A nostalgia do silêncio das horas que passaram, dos gritos que as horas me dão e me doem aos ouvidos cansados de ouvir tanta falta de sonoridade.
A delicadeza do meu feminino eu fito no espelho. Eu sou despida de toda a vulgaridade que a minha mãe sempre achou que as mulheres têm, eu sou despida de todo o preconceito incutido por ela dentro do meu ser psicologicamente formado, eu abro as minhas pernas nuas diante do espelho e olho para toda aquela proibição, e me demoro a aceitar-me mulher, da maneira que eu e ela somos. Pra ela todas nós somos criminosas.
Todas nós pecamos e mesmo que ela tente parecer a si mesma alguém dos tempos modernos, ela é tão antiga que é mais antiga que a minha avó, porque a minha avó era uma mulher que se orgulhava de ser mulher, ou até não se orgulhasse, mas se sentia mulher e se sentia bem por isso.
Eu sempre fui uma menina com o sexo igual ao que aparece no filme do Almodóvar, aquele sexo liso que não tem a carne específica do prazer da mulher. A minha mãe me fez acreditar que eu era daquela maneira, ela tinha vergonha de possuir o que possuía no meio de suas carnes, e eu era muito curiosa.
Queria saber como era, se era igual a minha, porque, mesmo me sentindo uma criminosa, eu pegava um espelhinho e colocava embaixo de mim para perceber as minhas formas. Só que eu não sabia se aquelas formas estavam certas, precisava ver as da minha mãe.
Queria me sentir bem com aquilo que eu tinha. Mas eu cresci com a curiosidade que só foi saciada mais tarde.
Um recalque. Sendo desfeito hoje. Então eu fito a delicadeza do meu feminino. Não só do feminino que habita entre minhas coxas, mas o feminino da curva que tem meu sorriso, da ponta do meu nariz empinado, dos meus olhos que lembram algo a alguém que eu nunca sei dizer bem o que é, mas pode ser algo de melancolia.
Percebo o meu cabelo liso e castanho, as minhas saboneteiras, meus ombros e sua altivez e a imponência da minha barriga nem gorda nem magra.
Eu me olho, e dispo-me dessas vulgaridades todas que a vida colocou na minha cabeça, e ela própria tem tirado.
Penso, com ajuda e interpretação até de amigos, que meu pai é mais feminino que minha mãe. Entende mais de mulher do que ela. Mas não sei falar sobre isso, senão pelo fato de que ele me fazia cócegas quando pequena e eu ria de tanto prazer.
O contato íntimo que quase nunca tive com a minha mãe foi suprido pelo meu pai.
Hoje passei o dia com o meu pai, está aí o porquê de tantos pensamentos.
Ele é delicado como uma rosa, os ventos mais invelozes são capazes de machucá-lo. Mas é uma rosa que sabe dar carinho com suas cores e seus aromas intensos. Sabe apaziguar um dia conturbado. E sabe silenciar.
Meu pai é uma rosa.
Minha mãe é um carro que ronca pra lá e pra cá e vive quebrado, na garagem.
Quem sou eu?
Uma rosa de rodas.
Eu sou uma rosa que ronca. Só que eu uso as rodas pra rodar o mundo. Se não o mundo de fora, o de dentro. Sou uma rosa que roda e que enfia os espinhos nas pessoas sem dó, mas cheia de culpas. Uma rosa culpada de rodas.
Rosa cujas rodas rodam por cima, por entre, por baixo e pelo meio das pessoas.
Uma rosa que levou um puxão na pétala, que ficou meio caída, naquele cai-não-cai da vida. A minha pétala quase quebrada eu carrego com cuidado.
Às vezes penso que seria melhor arrancá-la de uma vez, mas como uma rosa que não tem braços vai arrancar sua pétala quase despetalada? Só o tempo tira essa petalazinha, coitada, do cai-não-cai da vida. Enquanto o tempo não cumpre o destino, eu carrego a pétala defeituosa com carinho, depois de tanto odiá-la por me fazer diferente das outras rosas que existem por aí.
Eu odiava a pétala e as minhas rodas.
Hoje não mais. Quando mais pétalas me forem arrancadas, mais conhecerei onde os beija-flores beijam. Acho que ali é o alimento do amor. O meinho da flor. Ele é sempre encoberto pelas pétalas.
Às vezes beija-flores tentam me beijar o meinho. Poucos conseguem botar seus bicos no lugar certo. E os que conseguem me marcam com um furinho ali. No centro da alma da rosa.
Falar de beija-flores é complicado agora. Porque eu sou uma rosa com rodas e os beija-flores não acompanham os caminhos percorridos pelas minhas rodas. Eles só sabem vir e beijar e ir pra casa, depois, voltam ao mesmo lugar, mas eu fui embora porque tenho rodas, não é minha culpa. Eu sempre vou embora.
Vou embora porque tenho rodas.
Não sei até quando vou ser meio a meio.
Eu quero criar raízes.
E parar de rodar.