Quando eu era pequena, meu pai dizia que eu tinha olhos de jabuticaba.
-Moço, me ensina a rimar?
Quando eu era pequena, minha mãe dizia que eu era muito bagunceira.
-Moço, me ensia a arrumar?
Quando eu era pequena e meu irmão tinha nascido, diziam-me: seja exemplo para ele!
-Moço, me ensina a rumar?
Caminhei de pernas bambas e tortas
até aqui.
Vereda curva e torta
até aqui.
Trilha longa e difícil
até aqui.
Aqui. Ponto. Final. Começo. Aqui.
O moço apontou-me o caminho.
O moço organizou meus pertences.
O moço me ensinou a ser poeta.
Estou aqui.
O torto, o turvo, o curvo, está lá, um passo para trás.
O moço sempre me falou das coisas duras.
Agora estou aqui.
Tempo estou espaço.
Emoção estou razão.
Agora estou aqui.
Parada.
Concentrada.Parada.
É dar o próximo passo e eu sei que tudo muda.
É por o pé pra frente e plantar uma muda de futuro.
Concentrada, afinal, cheguei aqui, e no meio da estrada
uma
e
n
c
r
u
z
i
l
h
a
d
iuqaqui
Estou muda.
Voz estou silêncio.
Aço estou bagaço.
Poesia estou prosa.
Concentrada. Parada. Sentada.
Duas novas possibilidades:
direita ou esquerda, direita ou esquerda?
Moço, cadê você?
Vem, vem responder!
...responder...responder...responder...
Ecos de solidão, que a estrada está vazia
e o moço deve ter desistido de ajudar, tamanha minha teimosia.
Eu poderia deitar-me aqui e dormir e sonhar que escolho uma direção. Só que eu ia repetir o erro. Quantas vezes eu tive que escolher e fugi pra sonhar?
Sonhos lindos, sonhos lúcidos, sonhos loucos, pesadelos.
Acordei no mesmo lugar.
Parei aqui. Congelei o tempo para escolher sem pressa o próximo passo
(a massa me empurra se o tempo passa).
Estrada não é metáfora
e vida não é dividida,
ou então transformava-me em duas
e findava a confusão.
Não.
Poesia, sou prosa, e tenho que escolher uma objetiva direção,
que o limite do subjetivo é a pele,
a caneta,
e até onde vai o som da minha voz.
Voz, sou silêncio, e tenho que escolher.
Tenho que escolher.
Tenho que escolher.

