Tuesday, October 31, 2006

Quando eu era pequena, meu pai dizia que eu tinha olhos de jabuticaba.
-Moço, me ensina a rimar?
Quando eu era pequena, minha mãe dizia que eu era muito bagunceira.
-Moço, me ensia a arrumar?
Quando eu era pequena e meu irmão tinha nascido, diziam-me: seja exemplo para ele!
-Moço, me ensina a rumar?
 
Caminhei de pernas bambas e tortas
até aqui.
Vereda curva e torta
até aqui.
Trilha longa e difícil
 
até aqui.
 
Aqui.  Ponto.  Final.  Começo.  Aqui.
 
O moço apontou-me o caminho.
O moço organizou meus pertences.
O moço me ensinou a ser poeta.
 
Estou aqui.
 
O torto, o turvo, o curvo, está lá, um passo para trás.
O moço sempre me falou das coisas duras.
Agora estou aqui.
Tempo estou espaço.
Emoção estou razão.
Agora estou aqui.
 
Parada.
Concentrada.Parada.
 
É dar o próximo passo e eu sei que tudo muda.
É por o pé pra frente e plantar uma muda de futuro.
 
Concentrada, afinal, cheguei aqui, e no meio da estrada
 uma 
e
n
c
r
u
z
i
l
h
a
d
iuqaqui 
 
Estou muda.
Voz estou silêncio.
Aço estou bagaço.
Poesia estou prosa.
 
Concentrada. Parada. Sentada.
Duas novas possibilidades:
direita ou esquerda, direita ou esquerda?
 
Moço, cadê você?
Vem, vem responder!
…responder…responder…responder…
 
Ecos de solidão, que a estrada está vazia
e o moço deve ter desistido de ajudar, tamanha minha teimosia.
 
Eu poderia deitar-me aqui e dormir e sonhar que escolho uma direção. Só que eu ia repetir o erro. Quantas vezes eu tive que escolher e fugi pra sonhar?
Sonhos lindos, sonhos lúcidos, sonhos loucos, pesadelos.
Acordei no mesmo lugar.
 
Parei aqui. Congelei o tempo para escolher sem pressa o próximo passo
(a massa me empurra se o tempo passa).
 
 
Estrada não é metáfora
e vida não é dividida,
ou então transformava-me em duas
e findava a confusão.
 
Não.
 
Poesia, sou prosa, e tenho que escolher uma objetiva direção,
que o limite do subjetivo é a pele,
a caneta,
e até onde vai o som da minha voz.
 
Voz, sou silêncio, e tenho que escolher.
 
Tenho que escolher.
Tenho que escolher.
 
 
Posted by ||Nat at 00:17:04 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, October 24, 2006

 B     o    m           d     i     a
 
 
Bom dia, dia! Como está?
Acordei com a esperança no meu olhar.
Abri os meus olhos,
pus-me a cantar.
Cessei a tristeza
do meu andar.
 
Dia! Dia! Tenho um segredo pra contar
pra você:
eu era a lagarta que rastejava
a procura de não sei o quê.
Veio a inércia e a escuridão,
fiquei envolvida- nenhuma ação.
Agora rompo a casca com fervor
(o casulo caiu no chão)
e eu dei meu primeiro vôo descordenado
-um vôo na amplidão.
Dia, meu querido dia
meu andar não é mais triste
e meu voar é tão belo,
pois hoje vejo do alto e distantes
as pequenas coisas bobas que eu temia.
Dia, meu amigo dia
ilumina o meu caminho aéreo.
Aumenta o teu som
estéreo
que eu danço tua luz no ar.
Dia, obrigada por aparecer
-como pude duvidar que viria?
 
Perdoa as antigas dúvidas da lagarta rastejante.
 
Dia, dia, eu me vôo
pois há muito mais poesia em voar
do que em escrever.
 
 

Posted by ||Nat at 19:47:11 | Permalink | Comments (5)

Prata velha a Deus

Ah, quem disse?
Quem foi que me disse que eu teria que ficar
zanzeando de lá para cá,  de cá para lá
tocando a tudo e tentando viver todos
e todas as possibilidades?
Quem, quem me disse isso, que eu não dei a importância na hora
mas depois me veio a ânsia de seguir o conselho - quem foi o pentelho?
Quem disse que a minha rota não teria meta?
Disse também que a minha seta é louca e sempre muda de direção.
Quem disse, disse destruição. Sandice pura tomada por mim, em ação.
Quem foi que disse que um dia eu amaria um, sofreria, tentaria amar outro, não conseguiria,
gostaria de outro e não daria certo para que eu aprendesse que amo mesmo é o segundo dentre eles.
Quem foi que escreveu a minha história? Porque eu estou histérica, não quero saber o final.
Só quero saber se me dou bem ou me dou mal. Só isso.
Saber se meu coração vai aprender a ser estável,
saber se minha arte me acompanhará por todos os meus dias,
se meus filhos me darão a mão e passearão comigo no parque aos domingos.
Saber se nos dias de chuva eu e o meu amor vamos ficar debaixo das cobertas
fazendo amor, gozando, lambendo um ao outro como se fôssemos sorvete de morango
e depois, fatigados, dizer um ao outro o quanto nos amamos e queremos passar toda a vida
juntos.
unidos.
Eu quero a certeza do coração que pertence a um só, e a certeza da reciprocidade.
É tão difícil assim?
Não, não é, mas eu faço ser.
Então me diga quem escreveu a minha história, porque eu vou ter uma conversinha séria com o
senhor do meu destino.
Porque as pessoas que eu encontro pelo meu caminho são tesouros, e eu as troco por prata velha.
Por que eu sou assim? Gosto de prata velha?
Gosto do gosto velho na boca?
Cabeça ôca!
Eu quero agora é objetivo e uma estrada reta pra seguir, porque já cansei de pegar atalhos de atalhos de atalhos.
E cansei dessa estrada espiralada.
Eu quero uma estrada reta.
Estou dando adeus, estou dando a Deus (toma Deus, leva contigo!), todas as possibilidades que me foram inúteis.
Estou doando, porque quero uma estrada certa.
Adeus todos os erros, porque eu quero
uma
estrada
certa.
Posted by ||Nat at 02:34:03 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, October 18, 2006

À Dorothi

É preciso chorar em cima do caixão? Tudo bem se eu não souber chorar? Porque eu sinto esta morte como quando a gente dorme em cima do braço, e acorda com ele adormecido, formigando. Queria pegar a minha menina nos braços e dizer lindas preces de adeus, lindas preces de nunca tê-la visto. É a minha filha ali, deitada, prestes a ser enterrada. Eu nunca tive interesse pelas flores, o cheiro delas sempre me lembrou morte. Desde pequenina. Eu sempre convivi com a morte, e não. Ela não é assim tão dura quanto parece ser. É apenas um começo de algo que não se repete. E o final de coisas repetitivas. Então eu prefiro flores vivas, aquelas que têm sulco e raízes fincadas na terra, porque elas são mais naturais. Levo-te nos braços, filha minha, porque o teu sangue foram os meus sonhos, e a minha memória de ti, foi tudo o que eu amei. Jaz aqui aquela que ficou exposta ao perigo tantas vezes, que quase morreu tantas vezes, que quase foi assassinada pelas mãos de quem eu amo, que voltou à tona várias vezes, que foi feliz e também chorou várias vezes. E se eu te lembrar um dia, filha, a lembrança ecoará como uma visita aos deuses, porque este paraíso, por mais passageiro, foi meu, e somente meu, e por ser tão meu te levaram de mim, menina. Levaram-te, Dorothi. Mas é que meus sonhos permanecem intactos, embora você tenha ido, teu nome está aqui como algo que foi e que nunca vai ser… Sonhos intactos agora sob outros nomes, que não Dorothi. Não, eu não quero sofrer a tua morte, doce filha. Eu só quero seguir adiante, porque as borboletas são belas no meu caminho, e você se foi. Não há nada a ser feito, a não ser seguir adiante e observar as borboletas.
Posted by ||Nat at 22:53:48 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, October 17, 2006

Eletrik

 

Você quer um choque meu?

Você quer um toque meu? 

Toque toque toquerendo dar choque

Tô que tô que toquerendo dar choque

Achoque achoque choque é bom

dependendo do choque faz xókxók

Queixo queixo bate-queixo choque toque

tô chocada!

toque, corre, toc toc

abre e toque, xókxók, xók choque!

Não se choque, que meu toque dá choque!

Posted by ||Nat at 21:59:34 | Permalink | Comments (1) »

Monday, October 16, 2006

A capella 
 
 
♪T alvez eu tenha bequadrado
 
 
 ♪o sentimento.
♪E u me entendo como entendo de
 
 
♪m úsica.
♪S ou semibreve.
 
 
♪S aio sempre fora das linhas e das pautas
 
♪( como se transcrevem as oitavas).
 
♪M eu passo é Largo.
♪M inha impressão Adagio.
 
 
♪M inha sensação Andante.
 
 
♪M eu ritmo Allegro.
♪M inha expressão Presto.
 
 
♪A intensidade de tudo isso varia
♪d e fortíssimo a pianíssimo.
♪A cidentes acontecem:
 
 
 
♪O que era sustenido ficou bemol.
 
♪D evo pedir perdão pela dissonância?
♪. .. é que a partitura da minha vida é um recital.
 
♪S e nos dissociarmos fico semifusa, a priori,
 
 
 
♪m as me desconfundo,
♪p odendo então continuar
♪m eu eterno
♪s olfejo.
 
Posted by ||Nat at 21:32:32 | Permalink | Comments (2)

Friday, October 13, 2006

Eu

Sujeito indeterminado.

Artigo indefinido

Objeto direto e indireto.

Verbo intransitivo.

Locução adverbial de atemporalidade.

Regência. Coesão.

Narcisiologia reflexiva, de novo.

Vocativo.

Aposto.

Aposto contigo que você ainda não sabe quem eu sou!

Sujeito oculto? Será que oração sem sujeito?

Mas como falar com Deus se não há sujeito pra falar?

Aí é que se fala mais com ele.

No ego. Yes eco.

Sexo, sexo, sexo.

Sexo pulsando e prazer.

Sexo sem sexo. Assexuado por um tempo.

Sexo com sede de sexo.

Ai que vontade(s).

Sujeitinha mais indeterminante!

Posted by ||Nat at 00:08:57 | Permalink | Comments (4)

Wednesday, October 11, 2006

Gaveta dos Sonhos

Tenho no meu quarto uma gaveta secreta, gaveta indiscreta.

Guardo nelas minhas fofuras, minhas loucuras, minhas sandices.

Dentro dela, nada de mesmice.

Ela tem cor verde desbotada,  mais parece mofo.

Não conte a ninguém, mas guardo pessoas dentro dela.

Algumas estão mortas, putrefação pura.

Algumas vivem como se fossem dentro de caixões fechados e abandonados.

Vão morrer também.

Não conte a ninguém que eu sou uma assassina.

Não conte a ninguém o meu esmero com as coisas que guardo na gaveta.

É que depois de guardadas, elas não têm mais valia nenhuma.

Viram fantasia, ida. Viram coisa do passado.

A minha gaveta é tão triste, eu a tranco e não deixo ninguém ver.

Nela, coisas sórdidas, eróticas, familiares, românticas e planos de futuro.

É a gaveta da verdade que poderia ter realmente sido verdadeira, mas não foi.

Gaveta escondida.

Eu não quero levar mais nada nem ninguém pra gaveta.

Não, não me obrigue a guardar mais coisas na gaveta.

É triste ter que guardar coisas importantes na gaveta dos sonhos irrealizáveis.

Muito triste.

Posted by ||Nat at 22:32:08 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, October 4, 2006

Drawn, Gu(R)ia

Desenha uma borboleta nas minhas costas, mulher? Eu te acho linda e cheia de personalidade, o teu desenho de borboleta deve ser bonito.

Será que a tua borboleta é delicada quando tem as asas abertas?

Será que se ela pousar sobre minha flor, meu pólen será levado a outros lugares?

Eu não sei desenhar borboletas… Mas a feminilidade delas me atraem. Pergunto-me então:

- Como é o bater de suas asas?

- Quão alto é o seu vôo?

Desenha uma borboleta no meu seio esquerdo, em cima do meu coração. Deixe-me acariciar a tua borboleta desenhada? Meus dedos são delicados e frágeis, prometo não machucá-la.

Eu geralmente tenho nojo de insetos, mas a tua borboleta de alguma maneira me fascina. Deixe que ela pouse sobre meus lábios, deixe que ela sugue o néctar que a ofereço.

Eu não quero prendê-la, nem espetá-la num mural. Deixe-me aprender com você a coragem do vôo livre da borboleta?…

Posted by ||Nat at 16:48:11 | Permalink | Comments (3)

Tuesday, October 3, 2006

Maternizar

Acho que nasci para gerar.

Quando eu tinha três, quatro, cinco anos, minha mãe me colocava pra dormir, me dava um beijo e falava pra eu rezar. O meu pai me dava um beijo, e me dizia assim: Eu te amo, eu te adoro, eu gosto muito de vooooocê.

Eu rezava, pedindo pro papai do céu deixar o mal do portão pra fora da minha casa. Aquele portãozinho baixo, preto, com a tinta descascando, que deixava à mostra o azul antigo do portão.

Depois de rezar, colocava o travesseiro na minha barriga e fingia que estava grávida. Dormia grávida. Nem sabia como eram feitos os filhos, e já dormia grávida da idéia de estar grávida.

Acordava e durante o dia brincava de boneca, mas também as esquecia na cama quando ia brincar com as minhas primas.

Fui crescendo, e todos os dias pensava em ter filhos.

Quando me dei conta, já não era mais virgem, tinha dezesseis anos e um namorado. Quando me dei conta, meus pais estavam separados, minha vida estava uma bagunça, e o (ex) amor da minha vida me dizia que eu era a pessoa mais importante da vida dele.

Uma vez ele perguntou se ele era a pessoa mais importante da minha vida. Pedi desculpas e disse um tímido não.

“A pessoa mais importante da minha vida é o meu filho”.

Ele não compreendeu a minha resposta, e eu também não poderia cobrar isso dele. Nossos pontos de vista sempre foram diferentes. Por isso tudo terminou tão tragicamente, drasticamente, a ponto de nos machucarmos bastante.

Porém, tudo superado, enfim.

Eu era uma adolescente com um diário debaixo do braço. Um diário cujo texto em primeira pessoa tinha sempre uma dedicatória: aquele que saísse do meu ventre.

Agora eu estou aqui. Agora? Aqui? Minhas idéias são um pouco mais transcendentes. Mas o desejo parece ser inato, o  desejo de ser mãe, a vontade de gerar, de educar, de criar, de amar, de brincar e criar vínculos, de ser uma família, de conhecer o pai daquele filho que tanto espero. De saber que os desejos e as vontades entre mim e o pai são semelhantes, de gerar um filho para a liberdade de ser quem ele quiser.

Amamentar e não aprisionar.

Entender.

Fazer parte do processo de aquisição de linguagem, de interpretação dos sentimentos. Fazer parte, fazendo arte.

Eu digo isso com lágrimas nos olhos e com o coração pulsando, pulando, puxando o desejo de algum lugar maior que ele mesmo.

Deméter, materniza.

Seguro a mão das crianças que passam, sem mesmo tocá-las.

Elas seguram o meu espírito.

O meu espírito só se tornará seguro e completo no dia do nascimento do meu filho.

Se eu não puder ter filhos? Sentir os nove meses, ali, perispíritos sobrepostos, justapostos, vou ter de aprender a lidar.  Eu adoto.

Preciso estar preparada. Preciso ser minha própria mãe.

Quero gerar uma poesia concreta e personificá-la.

Posted by ||Nat at 18:03:07 | Permalink | Comments (5)