Segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Quando eu era pequena, meu pai dizia que eu tinha olhos de jabuticaba.
-Moço, me ensina a rimar?
Quando eu era pequena, minha mãe dizia que eu era muito bagunceira.
-Moço, me ensia a arrumar?
Quando eu era pequena e meu irmão tinha nascido, diziam-me: seja exemplo para ele!
-Moço, me ensina a rumar?
 
Caminhei de pernas bambas e tortas
até aqui.
Vereda curva e torta
até aqui.
Trilha longa e difícil
 
até aqui.
 
Aqui.  Ponto.  Final.  Começo.  Aqui.
 
O moço apontou-me o caminho.
O moço organizou meus pertences.
O moço me ensinou a ser poeta.
 
Estou aqui.
 
O torto, o turvo, o curvo, está lá, um passo para trás.
O moço sempre me falou das coisas duras.
Agora estou aqui.
Tempo estou espaço.
Emoção estou razão.
Agora estou aqui.
 
Parada.
Concentrada.Parada.
 
É dar o próximo passo e eu sei que tudo muda.
É por o pé pra frente e plantar uma muda de futuro.
 
Concentrada, afinal, cheguei aqui, e no meio da estrada
 uma 
e
n
c
r
u
z
i
l
h
a
d
iuqaqui 
 
Estou muda.
Voz estou silêncio.
Aço estou bagaço.
Poesia estou prosa.
 
Concentrada. Parada. Sentada.
Duas novas possibilidades:
direita ou esquerda, direita ou esquerda?
 
Moço, cadê você?
Vem, vem responder!
...responder...responder...responder...
 
Ecos de solidão, que a estrada está vazia
e o moço deve ter desistido de ajudar, tamanha minha teimosia.
 
Eu poderia deitar-me aqui e dormir e sonhar que escolho uma direção. Só que eu ia repetir o erro. Quantas vezes eu tive que escolher e fugi pra sonhar?
Sonhos lindos, sonhos lúcidos, sonhos loucos, pesadelos.
Acordei no mesmo lugar.
 
Parei aqui. Congelei o tempo para escolher sem pressa o próximo passo
(a massa me empurra se o tempo passa).
 
 
Estrada não é metáfora
e vida não é dividida,
ou então transformava-me em duas
e findava a confusão.
 
Não.
 
Poesia, sou prosa, e tenho que escolher uma objetiva direção,
que o limite do subjetivo é a pele,
a caneta,
e até onde vai o som da minha voz.
 
Voz, sou silêncio, e tenho que escolher.
 
Tenho que escolher.
Tenho que escolher.
 
 
Escrito por ||Nat em 21:17:04 | Link permanente | Comments (3) |

Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

 B     o    m           d     i     a
 
 
Bom dia, dia! Como está?
Acordei com a esperança no meu olhar.
Abri os meus olhos,
pus-me a cantar.
Cessei a tristeza
do meu andar.
 
Dia! Dia! Tenho um segredo pra contar
pra você:
eu era a lagarta que rastejava
a procura de não sei o quê.
Veio a inércia e a escuridão,
fiquei envolvida- nenhuma ação.
Agora rompo a casca com fervor
(o casulo caiu no chão)
e eu dei meu primeiro vôo descordenado
-um vôo na amplidão.
Dia, meu querido dia
meu andar não é mais triste
e meu voar é tão belo,
pois hoje vejo do alto e distantes
as pequenas coisas bobas que eu temia.
Dia, meu amigo dia
ilumina o meu caminho aéreo.
Aumenta o teu som
estéreo
que eu danço tua luz no ar.
Dia, obrigada por aparecer
-como pude duvidar que viria?
 
Perdoa as antigas dúvidas da lagarta rastejante.
 
Dia, dia, eu me vôo
pois há muito mais poesia em voar
do que em escrever.
 
 
 
Escrito por ||Nat em 16:47:11 | Link permanente | Comments (5) |

Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Prata velha a Deus

Ah, quem disse?
Quem foi que me disse que eu teria que ficar
zanzeando de lá para cá,  de cá para lá
tocando a tudo e tentando viver todos
e todas as possibilidades?
Quem, quem me disse isso, que eu não dei a importância na hora
mas depois me veio a ânsia de seguir o conselho - quem foi o pentelho?
Quem disse que a minha rota não teria meta?
Disse também que a minha seta é louca e sempre muda de direção.
Quem disse, disse destruição. Sandice pura tomada por mim, em ação.
Quem foi que disse que um dia eu amaria um, sofreria, tentaria amar outro, não conseguiria,
gostaria de outro e não daria certo para que eu aprendesse que amo mesmo é o segundo dentre eles.
Quem foi que escreveu a minha história? Porque eu estou histérica, não quero saber o final.
Só quero saber se me dou bem ou me dou mal. Só isso.
Saber se meu coração vai aprender a ser estável,
saber se minha arte me acompanhará por todos os meus dias,
se meus filhos me darão a mão e passearão comigo no parque aos domingos.
Saber se nos dias de chuva eu e o meu amor vamos ficar debaixo das cobertas
fazendo amor, gozando, lambendo um ao outro como se fôssemos sorvete de morango
e depois, fatigados, dizer um ao outro o quanto nos amamos e queremos passar toda a vida
juntos.
unidos.
Eu quero a certeza do coração que pertence a um só, e a certeza da reciprocidade.
É tão difícil assim?
Não, não é, mas eu faço ser.
Então me diga quem escreveu a minha história, porque eu vou ter uma conversinha séria com o
senhor do meu destino.
Porque as pessoas que eu encontro pelo meu caminho são tesouros, e eu as troco por prata velha.
Por que eu sou assim? Gosto de prata velha?
Gosto do gosto velho na boca?
Cabeça ôca!
Eu quero agora é objetivo e uma estrada reta pra seguir, porque já cansei de pegar atalhos de atalhos de atalhos.
E cansei dessa estrada espiralada.
Eu quero uma estrada reta.
Estou dando adeus, estou dando a Deus (toma Deus, leva contigo!), todas as possibilidades que me foram inúteis.
Estou doando, porque quero uma estrada certa.
Adeus todos os erros, porque eu quero
uma
estrada
certa.
Escrito por ||Nat em 23:34:03 | Link permanente | Comments (2) |

Quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

À Dorothi

É preciso chorar em cima do caixão? Tudo bem se eu não souber chorar? Porque eu sinto esta morte como quando a gente dorme em cima do braço, e acorda com ele adormecido, formigando. Queria pegar a minha menina nos braços e dizer lindas preces de adeus, lindas preces de nunca tê-la visto. É a minha filha ali, deitada, prestes a ser enterrada. Eu nunca tive interesse pelas flores, o cheiro delas sempre me lembrou morte. Desde pequenina. Eu sempre convivi com a morte, e não. Ela não é assim tão dura quanto parece ser. É apenas um começo de algo que não se repete. E o final de coisas repetitivas. Então eu prefiro flores vivas, aquelas que têm sulco e raízes fincadas na terra, porque elas são mais naturais. Levo-te nos braços, filha minha, porque o teu sangue foram os meus sonhos, e a minha memória de ti, foi tudo o que eu amei. Jaz aqui aquela que ficou exposta ao perigo tantas vezes, que quase morreu tantas vezes, que quase foi assassinada pelas mãos de quem eu amo, que voltou à tona várias vezes, que foi feliz e também chorou várias vezes. E se eu te lembrar um dia, filha, a lembrança ecoará como uma visita aos deuses, porque este paraíso, por mais passageiro, foi meu, e somente meu, e por ser tão meu te levaram de mim, menina. Levaram-te, Dorothi. Mas é que meus sonhos permanecem intactos, embora você tenha ido, teu nome está aqui como algo que foi e que nunca vai ser... Sonhos intactos agora sob outros nomes, que não Dorothi. Não, eu não quero sofrer a tua morte, doce filha. Eu só quero seguir adiante, porque as borboletas são belas no meu caminho, e você se foi. Não há nada a ser feito, a não ser seguir adiante e observar as borboletas.
Escrito por ||Nat em 19:53:48 | Link permanente | Comments (2) |
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